9 de fevereiro de 2023   
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A Arquitectura e as Obras Públicas

O que em Portugal se tem feitos nestes últimos quinze anos em matéria e obras públicas revela-o agora, em toda a sua grandeza, a Exposição que este «Livro de Ouro» ficará a comentar. Essa obra, da iniciativa e realização do Governo e particularmente do Ministério das Obras Públicas, evoca o ciclo dos detentores desta pasta e um nome inesquecível: o do engenheiro Duarte Pacheco – precursor, símbolo e exemplo.
Um conjunto excepcional de circunstâncias, um despertar na consciência nacional da urgência de certas realizações, um desejo de progresso que iluminasse o País, deram lugar a que a paisagem e as perspectivas urbanas portuguesas se enriquecessem de obras e construções, edifícios e monumentos, arranjos e remodelações de toda a espécie, que são afirmações da arte e da técnica a construir, admiravelmente ilustradas nesta Exposição.
Ao nobre propósito de enaltecer a obra dos engenheiros e arquitectos quis S. Ex.ª o Ministro das Obras Públicas acrescentar a honra de nos permitir falar da colaboração da classe que representamos – a dos arquitectos. Desta missão nos desempenhámos com desvanecimento, embora com o embaraço natural de quem procura interpretar um pensamento colectivo.
Ressuscitada a ideia de que a obra de Arquitectura pertence ao arquitecto, reposto este no seu esquecido papel de grande compositor de utilidades expressas em beleza, estes quinze anos de franca actividade vieram dignificá-lo, vieram enriquecer-lhe os conhecimentos profissionais – através do exercício constante e da experiência nele adquirida –, tornando-lhe possível transformar em realidades os seus pensamentos e aspirações de criador, para, por sua vez – e tanto quanto o soube e pôde fazer – retribuir a lição publicamente, numa contribuição para elevar o nível espiritual e material da Nação. Em meio da agitação da época que tem atravessado, sujeito a naturais e forçados condicionamentos, numa ânsia de cumprir e prestigiar-se, pode dizer-se que o arquitecto tem procurado atacar com brio os seus problemas, destrinçando-os e estruturando as soluções respectivas com a inteligência, o bom senso, a imaginação e a sensibilidade de artista, sem os quais a obra não pode aproximar-se da perfeição.
Se as obras literárias, poéticas ou musicais perduram através do livro, da audição e da tradição oral; se as especulações de ordem científica nem sempre se materializam atingindo finalidades utilitárias; se as manifestações de cultura e de espírito, em geral, nem sempre se revestem de aspectos palpáveis, a obra da arquitectura – feliz e infelizmente – concretiza-se e evidencia-se no panorama da Terra, ficando pelos séculos a atestar aquilo que na civilização dos povos representa perfume e espírito ao serviço de um objectivo material humano. Daqui a responsabilidade que cabe ao arquitecto; daqui a responsabilidade que cabe principalmente àqueles que, tendo que sancionar a sua obra – ou simplesmente alimentar o fogo sagrado da criação, pela crítica justa e pelo estímulo benéfico – possam esquecer-se, dessa responsabilidade de quem é, afinal, detentor de segredos e meios de expressão particulares.
A obra exposta poderá não constituir o conceito geral – e até no seu próprio conceito – uma vitória para o arquitecto, mas nem por isso deixa de ser um motivo de orgulho para ele, se se considerarem o seu esforço permanente – nem sempre aparentemente reconhecível – ao serviço do bem comum, a sua ardorosa luta em busca de uma verdade que lhe foge, as vibrações constantes da sua alma e consciência de artista.
Ao encontrar-se perante a surpresa que para ele próprio constitui a revisão dos seus trabalhos e dos de outros, num julgamento de si próprio, devem ficar-lhe um desejo de fazer mais e melhor e a convicção consoladora de que contribuiu, sentida e honestamente, para uma obra do alto alcance desta que se patenteia agora aos olhos de todos. E se algum voto devemos emitir, na ocasião e no lugar que podem tornar mais duradouros os seus protestos de agradecimento e satisfação, vendo-se pública e oficialmente dignificado, é o de que aqueles que lhe podem dar asas ou permitir-lhe maiores voos lhe permitam também que, à semelhança do que se passa pelo Mundo fora, se lance pelos caminhos novos que a sua ansiedade procura, pelas expressões resultantes da sua necessidade de apurar-se e depurar-se, na sua linguagem privativa, de tido o que seja preconcebido, fruto de má herança ou inconsistente devaneio, de tal modo que, ainda que a História possa vir a classificar a sua obra de decadente – ou de florescente, quem sabe? –, nela fique reflectida uma época – não com artifícios dourados, mas com o esplendor da Verdade – e a acção do arquitecto possa timbrar-se da nobreza e limpidez de um apostolado.

Cottinelli Telmo
Presidente da Direcção do Sindicato Nacional dos Arquitectos

(Parte VI de …)


15 Anos de Obras Públicas – 1.º Vol. Livro de Ouro 1932-1947 (006)

(Fonte: 15 Anos de Obras Públicas – 1.º Vol. Livro de Ouro 1932-1947 – A Arquitectura e as Obras Públicas)

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