19 de outubro de 2020   
>> PÁGINA INICIAL/TEXTOS
..:. TEXTOS

No que toca a política de fomento económico e social têm sido as mais diversas e contraditórias, as críticas dirigidas ao Governo português. Acusado de não ter recursos para desenvolver os territórios, Portugal é denunciado, contraditoriamente, como recebendo vultosos auxílios dos países ditos imperialistas. Ao mesmo tempo que se pronunciam discursos inflamados lamentando a sorte das populações que se diz estarem condenadas a permanecer num estado de subdesenvolvimento enquanto se não livrarem do «jugo português», as maiorias da ONU apelam para os organismos internacionais para que não concedam créditos a Portugal, quer para planos de desenvolvimento na metrópole europeia quer para esquemas no Ultramar. Enquanto os seus representantes proclamam a estagnação económica das nossas Províncias, as populações de certos países vizinhos servem-se delas para se abastecerem de géneros essenciais à sua sustentação, e através delas se escoa grande parte da produção de países hostis, como é o caso da Zâmbia que, de outra forma, não poderia exportar o seu cobre. Na verdade, tantas contradições apenas revelam a preocupação com o alto nível de progresso, principalmente de Angola e Moçambique, e isto em função de duas considerações dominantes: por um lado, mais significativo, a convicção de que o crescimento económico na medida em que implica o elevamento do nível de vida das populações, fará ruir o mito da independência que tentam insuflar e reforçará o sentido nacional português dos povos em causa. Nenhum caso ilustra melhor esta afirmação do que o alarido, que se está produzindo no seio da Organização da Unidade Africana, contra a construção da Barragem de Cabora Bassa e o consequente plano de valorização do vale do Zambeze, em Moçambique. Trata-se de um esquema de desenvolvimento que, partindo da construção de uma barragem que será uma das quatro primeiras do mundo, com a potência de 4.000 megavátios, beneficiará a agricultura, a silvicultura e a pecuária, as minas, a hidráulica e produção de energia, a indústria e os serviços de uma vastíssima zona. Os princípios orientadores que presidiram à elaboração e à execução do plano terão reflexo no desenvolvimento comunitário da população local, com vista ao seu progresso económico e social, permitindo a ocupação de novas áreas de exploração agrícola bem como o melhoramento das já ali existentes, implicando o estabelecimento de infra-estruturas nos sectores d energia, dos transportes e da comercialização, bem como a criação de serviços de saúde, higiene e instrução, tudo contribuindo, como é evidente, para a valorização dos povos da região. Parece que o Governo português deveria ser louvado por este empreendimento, que importará em algumas centenas de milhões de dólares, e que, como expressivamente declarou o chanceler português, se destina a fazer render o património da população de Moçambique – branca, amarela, mestiça ou de cor preta. Não é porém assim. Não apenas se mobilizaram contra ele organizações comunistas europeias e nomeadamente da Alemanha Ocidental, que faz parte do consórcio a quem foi adjudicada a execução técnica e o financiamento do projecto, juntamente com firmas portuguesas, francesas e sul-africanas, como a Organização da Unidade Africana enviou há dias uma missão à Europa, chefiada pelo presidente da Zâmbia para dissuadir a indústria alemã de participar no consórcio. A recepção que o Senhor Kaunda teve parece não ter sido, nesse aspecto, muito favorável. Os argumentos apresentados são de que tal obra, e outras mais de desenvolvimento económico das províncias portuguesas, constituem «ameaça à paz», «crime contra a humanidade», «acto de agressão», «tentativa de perpetuação do domínio branco na África austral», em suma, «um projecto criminoso». Assim mesmo! – e isto me traz ao ponto seguinte, ou seja, o da imagem criada no exterior no plano das intenções do Governo português quanto à sua política africana.

Imagem Exterior e Realidade Nacional (10)

Conferência pronunciada pelo embaixador de Portugal no Brasil, Dr. José Manuel Fragoso, na Escola Superior de Guerra, em 21 de Outubro de 1970
Desenvolvimento económico, págs. 21, 22 e 23

Consultar todos os textos »»

 
Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
Site criado por Site criado por PRO Designed :: ADVANCED LINES