26 de setembro de 2020   
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Se bem que esteja ainda por fazer a interpretação científica do fenómeno, que certamente há-de ser objecto interessado da sociologia política no porvir, creio poucos serem os países do Mundo que possam furtar-se à preocupação de ver a sua imagem no exterior divergir, quase sempre de maneira injusta e por vezes de forma dolorosa, da sua realidade nacional. Conhecemos algumas das causas reais: os conflitos de interesses entre as Nações, as antinomias ideológicas, o afrouxamento das regras tradicionais de convivência internacional provocado pela guerra fria, que tornou a calúnia impune de sanção moral. Sabemos os meios que permitiram que o fenómeno adquirisse proporções universais: o progresso das comunicações e a proliferação das fontes de informação. Não são mistério para ninguém as técnicas de acção, quase todas baseadas na deturpação mais ou menos inteligente e subtil dos factos, seja denegrindo o que se pretende destruir seja exaltando o que se almeja fomentar. Não ignoramos o seu objectivo precípuo, que é abalar a coesão de um povo em torno de uma ideologia, de um Governo ou do próprio conceito da Nação. Vamos ao ponto de identificar as centrais directoras das campanhas, os seus agentes, os seus órgãos de acção. Sabemos quase tudo acerca do fenómeno: só não sabemos a que extremos de sofrimento ele conduzirá os povos, tanto na medida em que facilita e provoca lutas armadas entre estes, como em resultado das pressões psicológicas a que os sujeita, como ainda em termos dos vultosos recursos humanos e financeiros aplicados pelos Governos na contra-informação e que tão maior rendimento dariam em actividades criadoras e reprodutivas.
Seriam numerosos os exemplos contemporâneos para ilustrar cada um daqueles casos, mas não importa citá-los porque são do conhecimento geral e porque me proponho tratar o tema exclusivamente, como me compete, em relação ao meu país. Mas aí, desde logo se põe uma objecção: é que a verdade de cada um, afirmada pelos seus agentes diplomáticos ou pelos órgãos próprios de informação, pode não ser a verdade universal ou raras vezes é tomada como tal. Então há que recorrer a depoimentos de terceiros; mas estes também podem ser postos em dúvida quer sob a acusação de conluio quer alegando que ao observador foi ocultado o acesso às fontes de informação ou aos locais de litígio. A nossa experiência tem demonstrado, até, que um detractor que se retrate honestamente, longe de ser acreditado pelos que até então o reconheciam como fidedigno passa a ser por estes considerado traidor à causa. Deste modo parece só restarem três atitude de defesa de alguma eficácia: «abrir as portas» aos que acusam, para que vejam por seus próprios olhos; utilizar as próprias fontes inimigas para restabelecer a verdade; por último, e em qualquer caso, «imunizar» a opinião pública nacional contra a pressão psicológica, desmascarando a mentira. Este último aspecto, por se situar essencialmente na ordem interna, não terá lugar na presente palestra.


Imagem Exterior e Realidade Nacional (02)

Conferência pronunciada pelo embaixador de Portugal no Brasil, Dr. José Manuel Fragoso, na Escola Superior de Guerra, em 21 de Outubro de 1970
Objectivos que forjam razões, págs. 5 a 7

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
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