8 de abril de 2020   
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A generalidade dos depoimentos que me foi dado ler e em que o conflito com a União Indiana foi visto à luz de conveniências religiosas e contra Portugal, nascem além do referido, de duas fontes: dos católicos progressistas e de certos meios da «propaganda Fide». Sabe-se o que são os primeiros: católicos que se deram à missão de baptizar o comunismo. Assim como Roma convertera os Bárbaros e moldara espiritualmente as novas sociedades cristãs, também a Igreja deverá agora abrir os braços e conciliar-se com o comunismo, metendo-o no seu seio ou a si no seio dele, para criar a sociedade futura: a verdade política e social adviria do comunismo; a verdade religiosa defini-la-á a Igreja, dentro dos limites definidos por aquele: Não discuto: anoto para dizer que não estranho a atitude hostil para com Portugal. Já no caso da «Propaganda Fide» – e considero as pessoas que nela trabalham e nos seus colégios se formam e nos seus métodos se educam – merece mais largo comentário.
Trezentos anos de incidentes e irritantes discussões leva a Propaganda a mostrar a sua má vontade a Portugal e ao Padroado do Oriente, privilégio outorgado pela mesma Igreja em cujo seio e para cujo desenvolvimento a Propaganda trabalha: mais realista que o rei, mais papista que o papa. A luta tem sido sobretudo desagradável, e devemos confessar que a evolução das circunstâncias até agora ajudou a dar às pretensões daquela quase completa satisfação: o Padroado é uma sombra do que fora e nos territórios onde existiu viceja sem a nossa concorrência a árvore da Propaganda.
Examinadas as coisas no fundo, bem no fundo delas próprias, vemos nesta luta tenaz, além daquela triste parte humana com que sempre tendemos a macular a obra divina, dois factores: insuficiente conhecimento da acção do Padroado Português a missionar os povos, no que alguma culpa teremos, e uma diferença de critérios, aliás perfeitamente admissível, acerca da orientação da obra missionária no mundo. Eu creio ter notado, quando da exposição missionária de Lisboa e no que acerca dela se escreveu em Roma, uma admiração sincera – embora um pouco tardia – por uma obra cuja pujança e brilho e pureza e desinteresse não escaparam a ninguém: por toda a parte onde o português chegou, implantou a árvore da cruz e ela aí se radicou e cresceu, e mantém viva e na vida fiel de Roma. Que interesse tivemos? Que lográmos com os dinheiros despendidos, os esforços empregados, as fomes, as misérias, os maus climas, as navegações ousadas, as lutas em terras longínquas, os martírios que sofremos – que lucrámos? Trabalhar na extensão do reino de Deus e com ele na elevação dos homens de todas as raças a maior espiritualidade de vida e fraternidade cristã.
A Propaganda tem os seus métodos de acção, filhos de certa interpretação dos factos políticos, ou seja, de uma certa concepção política. E nós temos outra. Mas a diferença de critérios não legitima uma hostilidade.
A Propaganda pode comparar-se a um grande exército, servido por um quartel-general, de comendo concentrado e gozando na Igreja de inteira liberdade de acção. A independência em relação aos governos ou a outras autoridades religiosas parece-lhe essencial, em qualquer dos casos considera-a útil. Por nossa parte, trabalhamos no Oriente – como trabalhamos em todas as outras Províncias do Ultramar – enquadradas as missões na divisão tradicional diocesana, o que está mais de acordo com este jeito do português de reproduzir nas terras distantes as instituições, as artes, formas de vida e costumes que deixou na mãe-pátria. Que o nosso sistema não possa desenvolver-se e frutificar sem um mínimo de relações e colaboração de governos que exercem a soberania é evidente, ainda, quando, como no regime português, o Estado não é confessional, não há união com a Igreja, mas apenas separação concordada.
Tocamos agora, senão no fundo, um dos aspectos mais sérios do problema.
Em face dos nacionalismos que irrompem frementes na Ásia e em África contra as soberanias e as posições que a Europa não cessa de abandonar, a Propaganda entende que deve tentar salvar a sua obra, dessolidarizando-se dos Estados, e por outro lado fazendo tanto quanto possível o recrutamento do clero entre os convertidos locais: independência política e clero indígena são os traços característicos das novas tendências, em reforço, quanto ao primeiro ponto, do que já vinha de trás.
Ora bem: este primeiro ponto pode ser uma necessidade de ocasião, mas não é uma verdade absoluta, nem dentro dos princípios religiosos nem à face da sociologia e da experiência política. Do princípio verdadeiro – a Igreja precisa de liberdade – está a passar-se irreflectidamente para esta outra proposição – a liberdade basta à Igreja –, que é manifestamente falsa, sobretudo quando formações religiosas concorrentes entram de qualquer modo como elemento de coesão social dos povos considerados e sob esse aspecto recebem protecção especial, directa ou indirecta, do estado. E este é que é o grande problema da Índia no aspecto religioso.
Quanto à formação do clero local, devemos nós arrogar-nos o direito de prioridade na matéria. No clero de Goa não chegam a uma dezena os sacerdotes do Continente e Ilhas e andam à roda de 700 os naturais do próprio Estado da Índia. Fora do território português, Goa traz em serviço das missões da Propaganda uns 200 sacerdotes. Que ironia dos factos e que lição! Nós ensaiámos há séculos a novidade – em 1530 já havia sacerdotes indianos – e em Goa pode dizer-se que desde há dois séculos o clero é na sua totalidade goês. E não só para Portugal: generosamente se dispersava e trabalhava também fora do Estado da Índia e fora do Padroado, no exercício de uma missão religiosa, que ainda não pôde ser acusada com verdade de apresentar traço de influência política. Por alguma razão a Goa se tem chamado a Roma do Oriente. É-o de facto pelo esplendor da fé católica, pela abundância das vocações, pelo espírito de proselitismo que anima a Igreja naquelas benditas terras. Por serem da Índia? Meu deus, não! Por serem portuguesa.
Humanamente e nos tempos próximos, não me parece que se possa confiar muito na expansão do cristianismo no Oriente. Mesmo sem ter em linha de conta que a retirada europeia pode precipitar o continente asiático por completo no comunismo – hipótese em que é escusado buscar soluções para uma questão que deixa simplesmente de existir –, um progresso razoável do cristianismo naquelas paragens não se afigura possível sem a acção missionária estrangeira que na Índia começa a ser dificultada pela distinção entre liberdade religiosa e liberdade missionária. Fermentarão então ideias de igreja nacional, condenada, na falta de outros apoios, à desagregação última das cristandades e sua submersão no caos religioso local. E Goa não pode ser invocada como exemplo em contrário, senão quando se compreenda que a Igreja é ali não a única, mas uma das várias instituições que formam a cultura e o espírito ocidental do goês.

Florilégio de pensamentos- Algumas das Mais Belas Páginas de Salazar (67)

As conveniências religiosas e o padroado – Discursos Vol. V, págs. 257 a 262
Edições Panorama - Lisboa 1961

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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