24 de julho de 2019   
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Temos passado anos a pregar, pela palavra e pelo exemplo, persistentemente, teimosamente, que todos não somos de mais para continuar Portugal. Com o alto nível da nossa tradição histórica e as exigências de uma herança de pesados deveres para com a nossa gente e para com os outros povos, seria louca tentativa – louca e vã – construir sobre lutas de partidos, ódios de classes, antagonismos de fortuna ou profissão, divisões em nós mesmos. Não o havemos compreendido e, sem abdicar do sentido da hierarquia necessária à vida social, revelamo-nos como membros solidários de uma comunidade que se funda no mesmo sangue, se alimenta dos mesmos frutos do trabalho e vive do mesmo espírito. No trabalho ou nos sacrifícios, no sofrimento ou na caridade, nas alegrias ou nas preocupações da vida individual ou colectiva fomos guiados – e salvos – pelo amor pátrio a reencontrar o elo da solidariedade que devia prender-nos como as pedras de um edifício – e sermos finalmente perante o mundo todos como um só.
É por um lado já agora nesta indestrutível unidade nacional e por outro no valor dos princípios informadores da nossa vida material e moral e na consciência desse valor que deve repousar a nossa maior confiança.
São certamente grandes as dificuldades dos tempos, e ninguém sabe neste acanhado mundo qual a parte de sofrimentos que lhe reserva directa ou indirectamente a tragédia da Europa.
Temos conseguido e, digamos, merecido viver em tranquilidade na Península e temos a certeza de que nos acompanham na nossa conduta a simpatia e solidariedade moral de muitos povos, não seguramente pelo egoísmo de uma atitude mas pelo real valor europeu de uma política.
Talvez por isso me não parece razoável nos alimentem exclusivamente preocupações da guerra, umas baseadas na gravidade real das situações e sem dúvida legítimas, outras filhas apenas do desvairo de fantasias sobre-excitadas ou malévolas, contra as quais é preciso reagir. Penso, ao contrário, mais devem interessar-nos os problemas da paz, pois se a guerra tudo pode destruir, por si mesma nada construirá. Seja qual for a sorte das batalhas, a extensão das ruínas, os horrores dos sacrifícios, a transformação política, económica e social da Europa, vinda de longe, seguirá o seu curso, e na revisão fatal dos valores a que a mesma obriga tratar-se-á sobretudo o que somos e valemos, como elementos construtivos, por nosso pensamento e trabalho. E havemos então de não ter o cérebro oco, o sentimento vário, as mãos vazias.
É certo haver valores absolutos na vida que tudo o mais se subordina e deve sacrificar, e alguns desses chamam-se dignidade da Nação, a liberdade e independência, a integridade territorial que é a nossa própria razão de ser da família portuguesa; mas não sei que alguma nação as desconheça ou alguma ambição as cobice, nem que construção se havia de fazer sobre o desprezo de realidades tão vivas e consagradas pelo tempo e pelo esforço das gerações. Não; tenhamos confiança! Tenhamos fé na lealdade própria e alheia, na ordem, no trabalho, na serenidade e seriedade com que havemos de encarar os problemas e acudir às dificuldades. Confiemos sobretudo, mais que na força das armas, na coesa e firme unidade nacional, no profundo e vivo amor à terra portuguesa, naqueles altos exemplos, valores da nossa história e ideais da nossa civilização, que o ferro não mata e o fogo não pode destruir!

Florilégio de pensamentos- Algumas das Mais Belas Páginas de Salazar (33)

Temos passado anos a pregar – Discursos, Vol. III, págs. 298 a 300
Edições Panorama - Lisboa 1961

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
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