17 de junho de 2019   
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Haverá uma espécie de injustiça social, involuntária e inconsciente, neste clamor de opinião pública contra o burocrata?
O burocrata é, no simplismo e também por vezes na justeza dos juízes populares, o homem inútil que se compraz em multiplicar as formalidades, encarecer as pretensões, amortalhar em papéis os interesses, embaraçar os problemas com as dúvidas, atrasar as soluções com os despachos, obscurecer a claridade da justiça em nuvens de textos legais, ouvir mal atento ou desabrido as queixas e as razões do público que são o pão, ou o tempo, ou a fazenda, ou a honra, ou a vida da Nação perante o Estado e a sua justiça; trabalhar pouco, ganhar muito e certo; sem proveito nem utilidade social, parasitariamente, sorver como esponja o produto do suor e do trabalho do povo.
Estes traços têm caricatura e infelizmente aqui e acolá também retrato. De quem a responsabilidade?
Quando nos países em desordem os políticos defendem as suas posições com a criação e distribuição de lugares às clientelas partidárias, praticam ao mesmo tempo acto imoral e ruinoso para a economia da Nação; mas quando, no aperto das crises, os mesmos responsáveis pela delapidação dos dinheiros públicos ou simplesmente pela inconsiderada extensão de serviços apregoam, como medida salvadora, o despedimento de funcionários em excesso, certo é fazer-se confusão entre problemas de moralidade administrativa e a necessidade de reforma do Estado. Quando por espírito de favoritismo, pessoal ou partidário, por fraqueza ou mal entendida bondade, corrupção ou ignorância das consequências, se preferem os maus aos melhores, degrada-se a moral do estado e comete-se acto grava contra a justiça; mas campo do interesse colectivo isso não é o mais grave. O pior de tudo é não se poder dispor de instrumentos de trabalho úteis; é funcionarem com rendimento baixíssimo e de má qualidade os serviços públicos.
Muitos se admiram de que sejam tão precários, tão modestos ou tardios os efeitos das suas reformas, de que os sinais das coisas se alterem do Governo até à Nação, o bem seja causa de injustiças e a justiça fonte de muitos males. Outros não sabem explicar-se porque aqui ou além uma ideia política e um acto de governo parecem dotados de tal poder de penetração no corpo social, de tal justeza na aplicação, que os resultados correspondem às previsões e os actos traduzem fielmente o pensamento que os ditou. Prudentemente deveriam uns e outros verificar como em ambos os casos está montada a máquina do Estado.

Florilégio de pensamentos- Algumas das Mais Belas Páginas de Salazar (31)

O burocrata – Discursos, Vol. III, págs. 280 a 282
Edições Panorama - Lisboa 1961

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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