27 de junho de 2019   
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(Continuação)

que se não pode tirar regra de conduta nem finalidade nacional. Muito melhor nos iria se pudéssemos substituir-lhes, como temos tentado, sabe Deus com que êxito, noções concretas, objectivos definidos, processos de trabalho eficientes. À volta do real as discussões são mais limitadas, menos azedas e por isso mesmo menos capazes de dividir-nos.
Atente-se por outro lado nas dificuldades trazidas à vida pública pela teimosa mediocridade do meio onde ameaçam afundar-se todas as aspirações generosas, movimentos largos, planos de envergadura. O meio, ou mais correctamente o conceito que dele fazemos (pois é ainda em parte uma abstracção) pesa terrivelmente sobre todos e sobre tudo e muito especialmente sobre os obreiros de empreendimentos nacionais, necessitados de largas perspectivas.
Não há dúvida de que o português, transplantado, brilha entre os primeiros nas Academias e Universidades estrangeiras; vêmo-lo triunfar, até sem grandes letras, inteligente e ousado, pelo Rio, por Paris ou Nova Iorque, no comércio e na indústria do grande mundo. Mesmo nas nossas colónias, desconhecido e por vezes desajudado, faz maravilhas que só pode honrar-nos. Sendo assim, nós não podemos atribuir à falta de qualidades de inteligência ou de sangue a vulgaridade corrente: temos de buscar a não floração das qualidades naturais à falta de estímulo do acanhado ambiente local.
O fenómeno é tanto mais curioso quanto flagrantemente contrasta com a nossa ancestral mania de grandezas na vida privada e com a realidade histórica que nos faz senhores de vasto império. Creio por isso que a não integração efectiva da ideia imperial no conceito corrente da Nação portuguesa encurtou a este País os horizontes a que devera habituar-se e em que deve aspirar a viver.
De modo que, não sendo prudente abandonar a si mesmo o problema da estabilidade política que neste plano é solidária da estabilidade nacional, sou levado a duas forçosas conclusões – a reforma da educação no sentido do positivo, a elevação do meio tanto na parte material das exigências da vida, como na parte moral das ideias, aspirações, tarefas colectivas. O fim é sempre o mesmo: valorizar o português, ou, para falar com mais exactidão, pô-lo em condições de compreender e agir num mundo diferente daquele a que se afez – e ele já não está em perfeito equilíbrio com o de hoje – mantendo intacto o duplo tesouro das suas qualidades como povo e do seu património como nação.
É pura justiça reconhecer que no terreno económico, moral, político ou diplomático tudo tem sido conduzido em obediência àquele pensamento fundamental, mas eu receio muito da preguiçosa tendência que espera prodígios da actuação de um homem ou de poucos, quando todos os milagres se deveriam confiar do esforço em conjunto da Nação, sobretudo quando, como Portugal, está habituado a fazê-los. Só se pode estar tranquilo quando obra tão vasta que se propôs descer até às próprias raízes do nosso ser colectivo não só tem o apoio geral – porque isso é ainda pouco – mas quando ela mesma representa como que a floração e fruto do esforço comum. Em verdade dois grandes sentimentos deviam inteiramente dominar as nossas atitudes e acções – o sentimento da comunidade portuguesa na vida de relações interior, e o interesse nacional no trato com as outras nações, como reacção contra a doentia preferência do nosso espírito pelo interesse estrangeiro.
Em tais bases e sob tais condições nós temos naturalmente de prever a ressaca dos acontecimentos, mas não temos de recear os tempos futuros, seja qual for a vastidão ou dificuldade dos problemas que a guerra crie, que a paz suscite. Estamos, por mercê de Deus, na zona que a sua luz e a sua paz ainda iluminam e docemente recobrem; podemos observar, reflectir, trabalhar, precaver-nos; somos senhores do nosso pensamento, livres nos nossos actos, superiores aos ódios cegos que dividem o mundo e rasgam o próprio seio das nações. Se o espírito do mal nos não contamina, se unidos e solidários trabalhamos para garantir a vida e bem-estar da comunidade nacional, e representamos – pela nossa ordem, trabalho, possibilidades geográficas e económicas, espírito de colaboração – factor positivo na reconstrução da Europa e do mundo, não podemos ser afrontados, nem desprezados, nem sequer esquecidos. Uma só coisa nos está vedada – sermos inúteis. Individual, social, internacionalmente essa impossibilidade, veto das circunstâncias senão da moral, traduz os limites para além dos quais tudo arriscaríamos, ao mesmo tempo que marca o largo sentido em que deve desenvolver-se a nossa vida de Nação.
… Há aí alguém que se disponha a tomar estes simples tópicos e parti-los aos bocadinhos e satisfazer a ânsia de espíritos generosos que para se darem só querem compreender? «Parvuli petierunt panem…»


Florilégio de pensamentos- Algumas das Mais Belas Páginas de Salazar (22)

Matéria para um livro de Discursos – Discursos, Vol. III, págs. V a XV
Edições Panorama - Lisboa 1961 (2 de 2)

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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