21 de maio de 2019   
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A oratória tem suas exigências e regras, descobertas pela razão e pela experiência, e próprias para a consecução dos seus objectivos; mas satisfazer inteiramente essas exigências e obedecer fidelissimamente a todas essas regras nunca puderam dispensar a verdadeira eloquência. Esta não é o brilho da forma, nem a loquacidade do orador, nem a inteligência do assunto, nem a correcção do dizer, nem a majestade e movimento da exposição, nm a propriedade dos gestos, nem a riqueza das modulações vocais – nada disto só por si, certamente alguma coisa de tudo isto, mas sobretudo esse dom misterioso de comunicabilidade pela palavra falada, possuído por homens raros, e com o qual, nos termos clássicos, se convence, se deleita e se persuade aos ouvintes.
Como obra de arte, o discurso tem sobre todas as outras a excelência, e ao mesmo passo a fragilidade, de ser obra viva, impossível de conservar no tempo: só existe em toda a plenitude a perfeição no momento mesmo em que foi criada. Depois ficam os traços das ideias e as cinzas das paixões, apagadas, mortas, sem alma. O momento arquitectónico, o mármore, a tela, a poesia mesmo conservam, com a identidade e duração da matéria e da forma, aquele jorro de luz, aquela centelha de sentimentos, aquela parcela de beleza que o artista lhes comunicou e perpetuamento os informam. A obra da eloquência não; o alto engenho do homem não poderá nunca evitar se destrua uma das suas mais belas criações: para fixá-la um dia como fora, ou fazê-la reviver, era preciso transpor a distância que vai da matéria ao espírito e da mecânica à vida.
Lê a gente ainda hoje as obras-primas de eloquência de todos os séculos, admira a elevação do pensamento, a inteligência e força dos raciocínios, a elegância e beleza da forma, o movimento próprio dos sentimentos que se vão despertando para ganhar e persuadir o auditório; e, ainda que se tenha ouvido o orador e na matéria se conserve alguma coisa da alma dos seus discursos, sente-se, ao lê-los, a frieza das coisas mortas e a impossibilidade de os interpretar à altura do que foram. Em todo o caso – aviso ao estéril verbalismo declamado – é pela grandeza do que resta que há-de medir-se o valor da oratória no campo da criação intelectual ou artística. Se nada resistiu ao tempo, nada tinha o cunho da verdadeira obra de arte


Florilégio de pensamentos- Algumas das Mais Belas Páginas de Salazar (10)

A oratória tem suas exigências – Discursos, Vol. I, págs. XLI a XLIV
Edições Panorama - Lisboa 1961

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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