18 de dezembro de 2018   
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(Continuação)

No dia 31, Mendes Cabeçadas demite todos os governadores civis e administradores do concelho.
Às 16 e 16, no Entroncamento, são presos à ordem do coronel Mousinho de Albuquerque, que comanda as tropas ali concentradas, os drs. Álvaro de Castro e Lopes de Oliveira, que iam para o Porto, decerto no intuito de exercer acção político-partidária no meio da tropa, aproveitando os poucos elementos de que podiam dispor e reunir em volta de Sousa Dias, agora que Gomes da Costa instalara na capital do Norte o seu Quartel-General.
Mendes Cabeçadas, sabedor em Lisboa da prisão, manda soltar os dois políticos, mas, Gomes da Costa conhecedor do acontecimento, ordena se mantenha a detenção.
No Porto, o general Gomes da Costa começa a tomar as suas medidas.
Assim, logo de manhã cedo, envia para os jornais e faz afixar nos placard a seguinte nota oficiosa:
«As tropas da guarnição do Porto, e outras que estão a chegar, vão marchar sobre Lisboa.
«Esta resolução, tomada pelo sr. general Gomes da Costa, obedece à seguinte nota há pouco recebida no Quartel-General da 3ª Divisão, enviada pelas 2ª e 5ª Divisões:

«“Tendo chegado ao conhecimento destes comandos, por meio de rádios interceptados e pelas notícias dos jornais, que é possível dar-se o caso de ser desvirtuado o pensamento que levou o Exército a efectuar o Movimento que acaba de triunfar, e de ficar o Governo do País entregue a indivíduos com os mesmos vícios políticos e imorais de que temos sido vítimas;
«“A 2ª e a 5ª Divisão do Exército declaram que se opõem e resistirão por todas as formas a que se cometa tal crime, e apelam veementemente para todas as outras a fim de que não seja consentido que o Governo seja entregue a políticos partidários, mas sim a homens de reconhecida honestidade e competência a que o Exército dará toda a força de que careçam para a execução dum programa nacional.

António Teixeira de Aguiar Schiapa de Azevedo”

«Esta nota foi entregue, pessoalmente, por um agente daquelas duas Divisões ao sr. general Gomes da Costa. Em face disto, o sr. general Gomes da Costa expediu rádios a todas as regiões, Divisões e unidades que desde o começo aderiram ao Movimento, ordenando que todas sigam para Lisboa.»
Interrogado pelos jornalistas sobre a nota, o chefe da «arrancada» confirma-a, dizendo

«Seguirei para Lisboa a impor a ordem! Os políticos ter-me-ão pela frente.»
A seguir, o general Gomes da Costa recebe os comandantes e alguns oficiais da guarnição do Porto, aos quais faz um discurso, no qual, a certa altura afirma:
«Venho aqui falar-vos dos objectivos do Movimento. É preciso dignificar a Pátria, a República e o Exército. Há muitos anos que nós vivemos numa verdadeira e insuportável miséria. Os partidos têm sido a nossa ruína e continuarão a sê-lo se nós não nos insurgirmos contra este estado de coisas. Sou um homem com quarenta anos de serviço, nunca me revoltei nem me revoltaria agora se não tivesse em vista o bem da Pátria, do Exército e do Povo.»
E acrescenta:

«Pelo que me tem sido dado observar, sei que vários elementos políticos procuram instantemente empalmar o Movimento e desvirtuar o pensamento que presidiu à sua organização. Eu detesto os políticos e nunca os consentirei junto de mim. Em Lisboa está já organizado um Governo. Alguém que esteve comigo deixou-se empolgar. Não o consentiremos!»
Após as visitas, Gomes da Costa manda expedir para o comandante das forças do Entroncamento os seguintes telegramas:

«O Governo de Lisboa não merece confiança, pois atraiçoou o espírito do Movimento do Exército. Recuso obedecer a ele. As 2ª, 3ª, 5ª, 6ª, 7ª e 8ª Divisões declaram-se solidárias comigo.
Vou iniciar a marcha sobre Lisboa, rapidamente. As tropas do Entroncamento devem aí aguardar resoluções. O tenente-coronel Raul Esteves fica fazendo serviço aí e à disposição deste Comando Central. Saúdo V. Exa e os seus oficiais pela sua bravura.»
«Governo Lisboa não merece confiança, atraiçoa espírito do Exército. Recusam obedecer-lhe as 2ª, 3ª, 5ª, 6ª, 7ª e 8ª Divisões, que estão solidárias comigo. Marco para a 4ª Divisão Vendas Novas. Entusiasmo das tropas indescritível. Mantenho autoridades militares.»
De regresso ao Quartel-General o Chefe da Revolução é surpreendido por uma grandiosa e imponente manifestação promovida pelos estudantes de Coimbra, chegados pouco antes no comboio especial.
Determina-se então os locais para a concentração das tropas: 6ª Divisão — Ovar; 8ª — Aveiro; 3ª — Aveiro; 2ª — Pampilhosa; 5ª — Coimbra. As tropas do Alentejo e do Algarve, bem como a brigada de cavalaria independente — Vendas Novas.

(Continua)

Documentos Históricos (33)

A arrancada de 28 de Maio de 1926, por Óscar Paxeco – 1956.
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A renúncia de Bernardino Machado — A última reunião do Parlamento dos Partidos (III de III)

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