19 de novembro de 2018   
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(Continuação)

O tempo passava-se, no entanto, nestes paliativos e pouco ou nada se adiantava. E de novo se corria o risco de mais um inevitável adiamento, visto os soldados dos vários regimentos irem ser licenciados.
Então foi que um grupo de «rapazes» numa reunião realizada pelos meados de Maio na pensão Camões, onde morava Armando Pinto Correia, ajudante de Gomes da Costa, resolveu convidar este general, aceitando a lembrança de Pereira de Carvalho, para chefiar a «arrancada» que viria a eclodir, como eclodiu, em Braga.
Gomes da Costa aceitou o convite, que no seu diário assinala ter-lhe sido feito no dia 17, mas impôs uma condição: ouvir-se Sinel de Cordes, cujo auxílio ele desejava até por saber o que era e valia a máquina revolucionária montada pelo antigo Chefe do Estado-Maior do C. E. P.. Gomes da Costa procedia assim porque sabia pelas explicações que os «rapazes» lhe davam, que um movimento só poderia sair com probabilidades de êxito desde que se fizesse a união de todos os elementos.
Luís Charters de Azevedo foi encarregado de falar a Sinel de Cordes e também a Amílcar Mota, Raul Esteves, Filomeno da Câmara e Alfredo de Albuquerque, os principais chefes, e isto porque ao primeiro destes oficiais não agradara a deliberação dos tenentes.
O destemido e entusiasta conspirador começou por procurar Raul Esteves que encontrou à porta da Havaneza, no Chiado, pelas 4 horas do dia 25 de Maio, pedindo-lhe que o ajudasse a demover Sinel de Cordes da recusa em aceitar Gomes da Costa como chefe da arrancada, O antigo comandante de Sapadores de Caminho de Ferro prontificou-se a anuir ao pedido do incansável conjurado mas aconselhou-o, também, a que não perdesse tempo e se avistasse o mais rapidamente possível com Sinel de Cordes.
Charters de Azevedo aceitou-lhe o conselho e nessa mesma tarde encontrou-se com o general Cordes na Casa Suíça, no Rossio, expondo-lhe então o que se passava. Aquele oficial mostrou-se, de entrada, muito reservado por temer que a Revolução, chefiada por Gomes da Costa, uma vez na rua, tomasse orientação esquerdista que viesse prejudicar ou melindrar a grande massa das direitas, que de forma alguma queria a repetição das cenas do 19 de Outubro. Depois, Sinel de Cordes tinha medo de que o Movimento nestas condições viesse a falhar, o que era igual a dizer que nunca mais seria possível fazer em Portugal uma revolução contra a demagogia, de tal modo esta se encarregaria, na repressão, de aniquilar todos os quadros da Ordem. Porque pensava em tudo isto, daí os seus receios.
Depois de ouvir Charters de Azevedo, que lhe falara na colaboração dos radicais, o chefe do 18 de Abril observou-lhe:
— Mas se eles têm força porque não fazem o Movimento sozinhos? De resto — comentou — eu não gosto nada de confusões.
Charters de Azevedo, em resposta, voltou a acentuar que fora encarregado pelo general Gomes da Costa de pedir a aquiescência e coadjuvação do general Cordes e de todos os oficiais e civis que estavam à sua volta desde o «18 de Abril», para um Movimento nacionalista. Desde que esta colaboração lhe fosse negada, o antigo chefe do C. E. P. não aceitaria chefiar a «arrancada».
Quanto às garantias políticas que este poderia oferecer, o enviado dos «rapazes» lembrou ao general Cordes que a Gomes da Costa não lhe repugnaria nada contribuir para a restauração de uma monarquia, tipo da inglesa e, consequentemente, muito menos trabalhar para uma situação ditatorial, como a que se pretendia, que pusesse o País na posição de escolher livremente sem coacção de nenhuma espécie a forma de Governo que melhor lhe conviesse. De resto Luís Charters argumentava ainda com o facto de na companhia de Gomes da Costa irem Pinto Correia e ele, que de forma nenhuma consentiriam numa traição aos seus amigos que eram os do general Cordes. Além disso fora Gomes da Costa quem declarara querer trabalhar de acordo com o vencido do 18 de Abril. Estava, pois, afastado qualquer perigo, porque o bravo militar era incapaz de faltar a compromissos tomados.
Ante o peso maciço destas considerações, Sinel de Cordes, senão convencido, pelo menos com as suas dúvidas muito abaladas, retorquiu:
— Está bem. Então vão... Vejam se conseguem levar o comandante Filomeno da Câmara, ou pelo menos uma ordem dele, para o tenente-coronel Valente, comandante de Infantaria 18 do Porto, a fim de que o Movimento rebente lá. E, se decorridas as primeiras 24 horas sobre o início da Revolução esta não tomar aspectos esquerdistas, eu darei as instruções necessárias aos nossos amigos para que a coadjuvem.
Nesse mesmo dia Pereira de Carvalho procurou Gomes da Costa a quem disse que era altura de seguir para o Norte, a fim de se pôr à testa da guarnição de Braga que «arrancaria». Ao mesmo tempo lembrou-lhe a conveniência de abandonar imediatamente a sua residência e ir instalar-se em casa do dr. Abel Múrias, na avenida de Duque de Ávila, ao que o general logo acedeu, indo acompanhado daquele oficial para a referida residência.
Julgou-se, porém, que ainda aqui o Chefe da Revolução não estaria em total segurança, visto que já se sentia o farejar da polícia governamental.
Raul Esteves recomendara mesmo a Luís Charters a conveniência de se sair para o Norte com o general, o mais rapidamente possível. Tal saída não convinha, porém, se fizesse da casa da Avenida de Duque de Ávila. E por isso resolveu-se transferi-lo para a casa do dr. Manuel Múrias, à Calçada de Carriche, onde então estava instalado o Colégio Nun’Álvares, e para a qual Gomes da Costa foi ao começo da tarde.
Cerca das 3 horas realizou-se ainda a última reunião dos conjurados, a que assistiram além do general e o dono da casa o dr. Trindade Coelho, director de O Século, Aníbal de Azevedo, Pinto Correia, João Pereira de Carvalho, o malogrado dr. Silva Dias e Luís Charters de Azevedo. Depois de se dar um balanço às possibilidades revolucionárias, após mais uma vez se verificar não haver em Lisboa os elementos suficientes que assegurassem a vitória, e isto porque depois do 18 de Abril os regimentos tinham sido esfacelados e fizera-se um verdadeiro corte entre os oficiais, dos quais muitos que eram das direitas se passaram para as esquerdas, mercê a forma como, naturalmente, aliás, foram tratados pelos vencidos e partidários do 18 de Abril, aos quais na hora própria tinham faltado; depois de se ponderarem cuidadosamente as circunstâncias, concluiu-se que, de certo, havia Braga e pouco mais.
Assentou-se nesta reunião que Gomes da Costa iria de automóvel até Paialvo, onde tomaria o comboio para o Porto.
Também nesta histórica reunião o dr. Manuel Múrias redigiu a primeira proclamação revolucionária do Chefe da Revolução, que dizia assim:
Portugueses!
Para homens de dignidade e de honra, a situação do País é inadmissível.
Vergada sob a acção duma minoria devassa e tirânica, a Nação envergonhada sente-se morrer.
Eu por mim revolto-me abertamente! E os homens de dignidade que venham ter comigo com as armas na mão, se quiserem comigo vencer ou morrer!
Às armas Portugal!
Portugal às armas, pela Liberdade e pela honra da Nação!
Viva a Pátria!
a) Gomes da Costa
General Comandante em Chefe do Exército Nacional

(Continua)



Documentos Históricos (08)

A arrancada de 28 de Maio de 1926, por Óscar Paxeco – 1956.
Elementos para a história da sua preparação e eclosão.

A nova escolha da Gomes da Costa (I de II).

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
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