19 de novembro de 2018   
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(Continuação)

Retomada a conspiração os generais Sinel de Cordes, Garcia Rosado, Óscar Carmona, Amílcar Mota, Roberto Baptista, tenente-coronel Raul Esteves, Filomeno da Câmara e outros oficiais superiores, passaram a reunir-se com certa frequência. Sinel de Cordes e Amílcar Mota, principalmente, mantinham o mais estreito contacto com as altas patentes.
As reuniões mais importantes e que requeriam maior recato e cautela realizavam-se em casa do antigo coronel de cavalaria, Alfredo de Albuquerque, onde com frequência se juntavam aqueles generais e também o general Alves Roçadas, um grande nome das nossas campanhas de África, que em determinado momento foi escolhido para chefe.
Outras vezes os conjurados reuniam-se, também, na leitaria Suíça, no Rossio, à vista de todo o Mundo.
Esta, porém, era a conspiração dos chefes — chamemos-lhe assim.
Ao mesmo tempo reapareceram também as outras conspirações, começando a desenvolver-se no meio dos conjurados uma série de correntes, cada qual impondo os seus princípios e a querer ter preponderância na preparação da Revolução para que assim melhor quinhão tivesse na vitória. Logo que se esboçaram essas correntes, principiou a confusão sem se saber ao certo para onde se caminhava. Em vão os mais ponderados quiseram pôr todos de acordo. Nada, porém, foi possível conseguir. E a certa altura só uma caminho se tornou possível: adiar a revolução para ver se assim se poderia pôr de parte, como só mais tarde se conseguiu, alguns elementos que à viva força a desfiguravam.
Como diria o dr. Manuel Múrias, que tão grande papel teve na preparação do 28 de Maio: «Conspirava-se sem que houvesse uma ligação entre os vários elementos que constituíam a conjura.
«Conspirava-se sem se saber para quê, ou, melhor, apenas com um fito: derrubar o partido democrático, havia anos senhor e dono do Poder.
«Enquanto predominou a ideia de se querer saber o que se seguiria ao partido democrático não houve forma de se fazer coisa alguma, não houve maneira de se dar um passo em frente. Por isso mesmo a conspiração que dividida por vários sectores engrossava dia a dia, não passava de meros platonismos. E era assim porque se pensava mais nas dificuldades da vitória do que propriamente em obtê-la.
«Até grupos regionais em várias cidades havia, quase sem ligação com os chefes verdadeiros.»
A isto acrescia a impaciência dos rapazes que a todo o transe queriam sair, e aos quais já qualquer servia para chefe, até o comandante Cabeçadas que, evidentemente, ia, sempre que podia, tirando partido da confusão.
Foi o grupo dos generais que a certa altura resolveu convidar o general Alves Roçadas para chefe do Movimento. Sabendo-o o comandante Cabeçadas convidou-o, também, em nome do seu grupo, da sua conspiração, como mais tarde havia de declará-lo.
Parece que esta unanimidade de vistas quanto à pessoa do chefe devia ter produzido a tão almejada união. Não foi, porém, assim.
A morte inesperada de Roçadas veio de novo mudar a face das coisas. Durante muito tempo voltou a conspirar-se sem qualquer fito imediato, O chefe ninguém sabia quem seria nem donde viria. Sinel de Cordes e o seu grupo continuavam a ter o «controle», dos altos comandos, os «cordelinhos» de toda a organização. Mas, Mendes Cabeçadas, à roda de quem se agrupavam sidonistas e radicais principalmente, fazia progressos na sua organização. Houve uma altura em que o núcleo mais aguerrido e pronto à acção era Braga. Pois Braga estava em ligação com Mendes Cabeçadas.
Era tal a desorientação, em determinado momento, que, conta Luís Charteres de Azevedo, que tantos e tão notáveis serviço prestou à causa da Revolução, «para desfazer a má impressão que pesava sobre os radicais ainda por causa do «19 de Outubro», resolveu-se reunir todos os grupos revolucionários à volta do então comandante Cabeçadas. E à roda do conhecido oficial da Armada apareceram homens como Armando Ochôa, João Pereira de Carvalho, Meira e Sousa Pedro de Almeida, Carlos de Vilhena, etc...».
Compreende-se, por isso, e apesar do muito que era contrariado pelo grupo dos generais, dos autênticos chefes, que a certa altura, o comandante Cabeçadas, principalmente depois de dispor da adesão do seu camarada Filomeno da Câmara, que para tanto abandonou os outros chefes do 18 de Abril, se julgasse e sentisse o verdadeiro chefe da Revolução a ponto de pensar estar em condições de convidar directamente, embora com ele não tivesse qualquer espécie de relações, o já então prestigioso oficial que era o sr. general Carmona.
Contou-no-lo o saudoso Presidente da República.
«Certo dia recebi em minha casa um recado do então comandante Mendes Cabeçadas que eu não conhecia nem de vista, pedindo-me que lhe marcasse um encontro. Marquei a leitaria Suíça onde parava várias vezes.
No dia aprasado dirigi-me àquele estabelecimento. Mas, como morava em Belém e a viagem de eléctrico até à Baixa era massadora, e também porque sempre gostei muito de andar a pé, era meu costume apear-me no Conde Barão e seguir, depois, de passeio até ao Rossio. Nesse dia assim fiz.
«Quando cheguei ao Largo do Corpo Santo vi dirigir-se-me um senhor que eu não conhecia. Apresentou-se-me dizendo ser o comandante Cabeçadas. Respondi-lhe que ia a caminho do encontro combinado e aquele oficial retorquiu-me que lá estaria também, mas que como tivera de vir ao escritório dum seu irmão em S. Paulo, calhara encontrar-me e resolvera falar-me.


(Continua)


Documentos Históricos (04)

A arrancada de 28 de Maio de 1926, por Óscar Paxeco – 1956.
Elementos para a história da sua preparação e eclosão.

A barafunda das conspirações e a chefia de Roçadas (I de II).

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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