14 de dezembro de 2018   
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(Continuação)

palavra mais. Que os filhos sejam leais e abertos, que não tenham segredos para sua mãe, parece-nos indispensável. Que procurem não sofismar, não representar, expor com pureza os seus problemas, os seus anseios — muito bem. Mas que se lhes incuta desde cedo a noção de que nem tudo quanto sentem, só pelo simples facto de ser contado e exibido sem disfarces, passa desde logo a ser justo e a ser bom. Que saibam discernir, hierarquizar as suas próprias reacções, de acordo com uma sólida escala de valores morais — de maneira que não confundam sinceridade com cinismo, lealdade com desrespeito, autenticidade com impudor. Deixar crescer nos filhos pequenos os instintos, as tendências em liberdade, pedindo-lhes, como única regra moral, que sejam sinceros consigo e com os outros — é um dos caminhos errados da educação (ou do que a substitui) no nosso tempo. Caminho que um dia, desoladoramente, expõe a mãe a descobrir nos filhos uma ausência de senso moral tão grande que nem se dá ao trabalho de ocultar aquilo de que não aprendeu a envergonhar-se. Isto não é infelizmente uma visão pessimista: ao falar, penso em casos concretos que conheço.
O respeito que toma a forma de vergonha diante da mãe é um salutar freio às más inclinações. Nem tudo deve discutir-se entre pais e filhos; sobretudo nas primeiras idades da vida parece-me indispensável que as crianças se habituem a acatar sem discussões nem explicações um certo número de princípios e de regras de conduta que hão-de pela vida fora constituir neles um fundo inalienável, uma espécie de segunda natureza às vezes mais forte e duradoura que a primeira.
É preciso, é indispensável que a mãe não abdique do seu lugar de Rainha na família. Que não desça a todos os servilismos, julgando assim conquistar mais facilmente o amor dos filhos. A primeira noção de sociedade que a criança recebe é-lhe dada pela família. Se queremos que o mundo de amanhã seja um mundo de ordem, de amor esclarecido, de fidelidade a Deus e aos valores eternos, é necessário que essa primeira imagem seja desde logo a de uma sociedade solidamente hierarquizada. A criança, ao contrário do que erradamente se deduziu de certos conceitos da moderna pedagogia, não pode nem deve ter o primeiro lugar na família, O facto de ela ocupar esse lugar no coração e no pensamento dos pais, em nada deve influir. É preciso que a criança se habitue a prestigiar, a glorificar, a colocar muito alto na sua estima e no seu amor os pais que são para ela a primeira imagem sensível de todo o poder divino e humano. Não foi a discutir as ordens paternas, a reclamar os pratos preferidos, a ditar leis em casa, a exigir uma atenção e um carinho exclusivos, que alguma vez se educaram os homens verdadeiramente livres e generosos da História. Foi na obediência e no respeito que todas as grandes almas se formaram. Não se atrofiou com isso a sua capacidade de afirmação e de iniciativa. Pelo contrário — é o hábito funesto de discutir, de reclamar, de regatear, que tem conduzido os homens e os povos a todas as misérias e a todas as escravidões.
Por muito que isso custe à modéstia natural e à ânsia de abdicação e de renúncia que traz em si, a mãe não pode nem deve abdicar do seu lugar de Rainha da casa. Não deve servir os filhos já crescidinhos de pé, à roda da mesa; não deve levantar-se para lhes ir buscar o brinquedo que pedem, não deve até privar-se de sair para lhes satisfazer um mero capricho. A educação é obra de genialidade: conci-

(Continua)

O Problema da Educação (38)

Reflexões sobre o papel da mãe no mundo moderno, por Ester de Lemos - 1960

Estas palavras foram lidas pela primeira vez, a convite da Organização das Mães pela Educação Nacional (O. M. E. N.), durante as comemorações da semana da mãe, em 13 de Dezembro de 1959, no salão de festas do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho.
E repetidas, a convite da M. P. F., no Teatro do Palácio Foz, em 10 de Fevereiro de 1960.

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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