13 de dezembro de 2018   
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(Continuação)

gando um pouco o sentido, o que partilha connosco o pão diário de alegrias e tristezas, ou até o Pão da Vida Eterna; o que se senta à mesma mesa, num sagrado ritual de solidariedade. «Camarada» significa apenas «o que dorme na mesma câmara». É o igual, o arregimentado de acaso... Mãe e filhos podem ser, devem ser companheiros, participantes do mesmo pão de vida. Mas não podem ser camaradas, porque à mãe compete o lugar à parte, o respeito que impede a intimidade niveladora.
Consideram muitos como uma das grandes conquistas da educação chamada moderna o à-vontade nas relações entre pais e filhos, o arrasar das barreiras de cortesia e respeito que os separavam. Não negaremos que a possibilidade de um convívio leal e amigo, a confiança mútua, o hábito de se abrir sem reservas o coração constituem outros tantos aspectos positivos. Mas esforcemo-nos por ver o passado numa perspectiva tanto quanto possível histórica, sem procurarmos reduzir tudo à medida da nossa mentalidade século XX. Não censuremos na educação antiga a ausência de uma liberdade que não fazia falta às almas de homens criados para o respeito das hierarquias; consideremos que as coisas da sensibilidade ocupavam então na vida lugar bem menos visível e aparente do que hoje; que ainda no século XVII D. Francisco Manuel de Melo censurava pela falta de siso e dignidade um nobre chefe militar que tinha a fraqueza de acariciar os filhos pequenos diante de estranhos, e considerava imperdoável relaxamento de costumes que um homem dirigisse uma palavra de amor a sua mulher diante dos criados. Lembremo-nos que a forma de encarar a vida era bem outra. Que a submissão a uma ordem pré-estabelecida, a fidelidade aos deveres de religião, de sangue e de estado ocupavam na vida familiar dos homens e mulheres até ao século XVIII e ainda além, importância bem maior que os impulsos do instinto e os direitos do coração (direitos estes só muito
tardiamente reconhecidos como legítimos). Para formar almas que se destinavam a viver nesta lei, importavam bem mais do que as confidências mútuas de pais e filhos os hábitos cedo adquiridos de obediência, respeito, admiração que formavam esse sentimento hoje tão esquecido a que se chamou a piedade filial. Não exageremos, por outro lado, a nossa visão dos costumes antigos a ponto de supor que não houvesse, sobretudo entre a mãe e os filhos, uma terna, sólida e profunda amizade, que o tratamento de senhoria, o beija-mão acompanhado da bênção, e a compostura rígida à mesa de família de modo nenhum excluíram. Quando chegavam as horas difíceis em que se exigia o testemunho, viram-se então exemplos de dedicação heróica e de solidariedade sem brechas, que a família moderna, com toda a sua preocupação de democrático nivelamento entre pais e filhos nem sempre é hoje capaz de oferecer.
Não se suponha por isto que desejássemos ver restabelecer essa espécie de temor sagrado que os pais inspiravam e que, levado até ao excesso, provocou o desespero e a ruína de muitas vidas. Simplesmente, parece-nos que se exagerou no sentido oposto. Que se esqueceu, na procura obsessiva daquilo a que hoje se chama «autenticidade» esta coisa tão elementar e tão intuitiva: que os pais não devem ser apenas objecto de amizade mas também de respeito, como representantes e delegados de Deus que são junto dos filhos.
O culto da «autenticidade» tão explorado hoje em educação não pode deixar de merecer-nos uma

(Continua)

O Problema da Educação (37)

Reflexões sobre o papel da mãe no mundo moderno, por Ester de Lemos - 1960

Estas palavras foram lidas pela primeira vez, a convite da Organização das Mães pela Educação Nacional (O. M. E. N.), durante as comemorações da semana da mãe, em 13 de Dezembro de 1959, no salão de festas do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho.
E repetidas, a convite da M. P. F., no Teatro do Palácio Foz, em 10 de Fevereiro de 1960.

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
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