19 de dezembro de 2018   
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(Continuação)

que Deus lhe entregou para ajudar a formar, terá as condições ideais para ser ainda e sempre a educadora por excelência. Porque — não nos esqueçamos: se queremos continuar fiéis à nossa qualidade de cristãos, temos de nos precaver contra as tentações de um cientismo que está muito na moda, temos de alargar e aprofundar o nosso conceito de educação — tendo bem presente que o desenvolvimento das aptidões e a criação de um sentimento segurança e eficiência não são os fins últimos que a educação deve propor-se.
Cristãos como somos, temos de continuar, para lá de todas as modas, a acreditar que o objectivo de uma verdadeira educação é a formação escorreita de uma consciência cristã. E, partindo deste princípio, voltaremos facilmente a acreditar que a mãe, a mãe que o é e o sabe ser verdadeiramente, continua, no mundo moderno, materialista, tecnicizante, a ser a grande educadora. Que o é hoje mais do que nunca, hoje que tantos perigos exteriores ao lar ameaçam a formação integral de uma mentalidade cristã. Hoje mais do que nunca, a mãe tem de estar no seu posto, se quer cumprir a sua verdadeira missão. Urge que todos nós, católicos, insistamos na ideia dessa missão maternal. Por todas as razões e ainda porque, se tirarmos à mãe a sua função de educadora, reduzimo-la tristemente à maternidade física, à pura função biológica, ao instinto comum a todas as espécies.
Uma certa literatura moderna, degenerada da raiz romântica, criou uma convencional imagem da mãe que, infelizmente, por ser fácil e bonita, por falar a uma certa sentimentalidade piegas, se generalizou muito, obliterando, substituindo o verdadeiro conceito de maternidade. É a imagem da mãe reduzida ao instintivo, ao imediato da sua função — a mãe na ordem estritamente natural, a mãe que dá a vida física ao filho e depois o alimenta, o agasalha, o protege dos perigos, o ensina a dar os primeiros passos e a subsistir na luta pela vida. É a mãe de amor carnal e cego, a mãe que em certos romances neo-realistas e outros aparece humilhada, maltratada pelo filho, cedendo diante das exigências deste, servindo-lhe de escrava, encobrindo-lhe os crimes, roubando para lhe alimentar os vícios — triste imagem degradada e miserável da maternidade.
Esse amor comum a todas as espécies, não é, ao contrário do que se diz vulgarmente, «uma coisa humana». Habituámos-nos demais a dizer, a respeito das fraquezas, das cedências ao instinto, das sujeições à carne, que «é humano». Devíamos antes dizer que é animal. Humano, especificamente e diferenciadoramente humano é o que ergue o homem acima da escala natural, é o que o aproxima de Deus, a cuja imagem e semelhança foi feito. Verdadeiramente humana é a mãe que reprime e recalca as vozes do instinto materno para corrigir o filho, Deus sabe com que desgosto; verdadeiramente humana é a mãe, que pensa no destino sobrenatural dos que lhe foram confiados. Porque dar à luz, alimentar, proteger, defender dos perigos circundantes, isso fazem-no todas as mães da escala zoológica. Isto são verdades muito sabidas, mas muito esquecidas. E cada vez mais, no nosso tempo. Não culpemos a Literatura, pelo menos não a culpemos em absoluto, porque ela é sobretudo fruto e espelho do clima em que se gera. Culpemos, sim, a nossa época no seu desejo absorvente de bem estar material e de triunfo terreno, no seu comodismo arvorado em virtude, no seu esquecimento de Deus. A missão da mãe cristã neste tempo continua a ser a mesma: apenas é mais difícil de cumprir, porque não vai com o vento que sopra, porque exige um remar contra a maré, uma coragem de resistir às sugestões exteriores que não é para todas as almas.
Na consciência dos pais de hoje surge com frequência uma dúvida que não é raro ouvirmos formular: «Terei o direito de estar a educar o meu filho no culto de valores que caducaram? Terei o direito de lhe incutir o amor por virtudes que, no mundo de amanhã, farão dele um inadaptado, quando não um vencido? Devo, por exemplo, transmitir o respeito profundo que me ensinaram pelos direitos dos outros a uma criança que amanhã terá de viver num mundo incapaz de respeitar os seus? Devo criá-lo como fui criado, no culto severo pela palavra dada, pelo compromisso assumido, para que, em crescendo, ele se sinta mais profundamente infeliz perante o espectáculo das infidelidades e das deserções? Devo habituá-lo a estimar-se a si e aos outros pelo que são e não pelo que têm, sem me importar com a solidão e o desprezo a que hão-de votá-lo, numa sociedade que cada vez mais se organiza sobre o poder económico? Devo dizer-lhe que Deus, a Pátria, o Amor, a Verdade são as únicas grandes razões de viver, para que amanhã ele se sinta como um Quixote visionário e louco, entre gente que não entende a sua língua? Devo, numa palavra, educá-lo na continuidade de uma tradição, ou educá-lo para o futuro que se prepara? Devo fazer dele um homem feliz, ou um homem de bem?» Este é o dilema que se põe à consciência dos pais de hoje; das mães, sobretudo, mais dispostas a recear pelo bem-estar futuro do filho, que só dificilmente imaginam adulto e capaz de se defender sozinho...
Na realidade, é um dilema apenas aparente. Porque ser um homem de bem não é e não será nunca, assim devemos esperá-lo, incompatível com a verdadeira felicidade; porque isso a que chamamos um homem feliz segundo o padrão futuro — o triunfador, o da força económica, o das facilidades técnicas tornadas ideal, o da vida simplificada, é apenas o homem vazio e empobrecido. E sobre ele pesará, pesa já sobre o seu antecessor do nosso tempo, o tédio das coisas fáceis, e a nostalgia das grandes aventuras espirituais. De modo que nem sequer para o mundo teremos a certeza de criar homens felizes. Depois, fazer cálculos deste género é indigno de verdadeiros cristãos. Com que direito nos pomos a construir sobre um futuro que pertence a Deus? A nossa Fé deve servir-nos de escudo contra terrores desta espécie. É necessário confiarmos que, para além de tudo, a lição de Cristo prevalecerá — e que portanto não há outra cartilha senão o Evangelho por onde possamos ensinar os nossos filhos a viver. É para a eternidade que estamos a criá-los. E só assim triunfamos do biológico. Só assim passamos, de simples colaboradores na Criação, a colaboradores na Obra da Redenção.
Quer isto dizer que nada mudou? Que podemos educar hoje como há cem ou duzentos anos? Que o facto de criar almas para a Eternidade nos dispensa de atender ao que é temporal? Evidentemente que não. Se assim fosse, não se justificaria sequer o tema que escolhi para estas reflexões. Mas a verdade é que, na medida em que o Cristianismo é eterno e inalterável, também a educação cristã, no que tem de essencial, se mantém sem mudança. Mudam certos aspectos mais exteriores, certas formas de convívio, certas posições relativas de educador e educando.

(Continua)

O Problema da Educação (34)

Reflexões sobre o papel da mãe no mundo moderno, por Ester de Lemos - 1960

Estas palavras foram lidas pela primeira vez, a convite da Organização das Mães pela Educação Nacional (O. M. E. N.), durante as comemorações da semana da mãe, em 13 de Dezembro de 1959, no salão de festas do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho.
E repetidas, a convite da M. P. F., no Teatro do Palácio Foz, em 10 de Fevereiro de 1960.

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
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