O SIGNIFICADO DUMA VISITA
(Discurso proferido no banquete de despedida, no Salão Nobre do Primeiro Senado de Goa, em 11 de Maio de 1952)
Senhor Governador-Geral
Surgimos na barra de Goa, mais pela bondade de Nosso Senhor que por nossos merecimentos, arte e saber: onde se acabou a nossa viagem e este livro.
Assim terminava D. João de Castro o seu famoso roteiro. Semelhantemente poderia acabar eu a minha peregrinação pelas terras portuguesas da Índia. Porque se a humildade cristã do grande marinheiro subestimava os seus méritos, no meu caso sinto até orgulho em afirmar que para o desempenho da missão que aqui me trouxe pouco mais fiz do que presenciar a mais bela e transbordante manifestação de patriotismo que o meu emocionado espírito de português poderia esperar.
Viagem iniciada com os votos de uma Nação inteira, que desde o deu Supremo Magistrado ao Governo e órgãos da soberania, das suas forças espirituais às Forças Armadas, em todos os sectores da vida nacional, das mais altas classes às mais humildes pessoas, toda a Imprensa Portuguesa, na Metrópole ou nas Províncias ultramarinas, manifestaram expressamente, pelas mais variadas e inequívocas maneiras, uma carinhosa simpatia pelo povo português da Índia a quem enviavam um mensageiro. Viagem que termina numa verdadeira consagração pública de uma obra de séculos de esforços abnegados, de sacrifícios imateriais, de doçura, persuasão e amor.
Pouco mais sou, nesta jornada patriótica, do que uma testemunha que, por emocionada, não deixará de ser exacta. O que vi não me deixou um só rasto de dúvidas. O que vi foi um povo inteiro que tinha a ânsia de responder a uma mensagem com uma afirmação.
Voltei a Goa largos anos depois de ter daqui levado recordações desvanecedoras. Regressei mais velho, mais experiente, depois de ter conhecido mais Mundo. Julgo que poderei agora sentir, ou pelo menos comparar melhor. E o que vejo é isto: uma paisagem cuja beleza inebriante ultrapassava a minha esmaecida lembrança; as mesmas gentes que conservou inalteradas as virtudes patrióticas e que tem agora uma oportunidade para mais exaltadamente as manifestar.
Vi um povo simples e bom, trabalhando pacificamente nos campos, nas oficinas ou nas cidades, rezando com devoção nos templos, amante fervoroso do seu torrão natal. Ouvi toda a gente, desde as pessoas mais humildes à mais qualificadas, desde os que exercem cargos públicos de confiança àqueles que nada têm com a administração. Falaram-me no formalismo de sessões cívicas, na austeridade dos quartéis, na solenidade dos templos, em ajuntamento de eruditos, nas ruas de aldeias remotas, na simplicidade dos encontros casuais. Quanta vez o povo nos barrou a passagem para ostensivamente proclamar a sua lusitanidade! Declarações meditadas umas, outras espontâneas e todas sinceras. E, acima de tudo, uma simpatia contínua, geral, intensa, da capital do Estado à pequenas povoações do interior, em Goa, em Damão e em Dio, transbordando dos olhares dos homens, das mulheres, das crianças, que em cachos se amontoavam nas estradas para, com um gesto carinhoso ou um olhar de afecto, saudar o enviado dos Portugueses de todo o vasto mundo português.
Esta a primeira, a mais forte, a mais incontestável, a mais valiosa certeza que recolhi.
Mas mais alguma coisa veio ainda acrescentar-se ao agrado que me dominou nesta minha rápida e intensa visita. A Índia Portuguesa vive em condições económicas e financeiras privilegiadas. Perfeitamente defendida a sua moeda, praticamente sem dívidas ao Estado, com rendimentos sempre crescentes, o Governo pôde lançar-se com segurança e sem receios na execução de importantes obras de fomento.
Embora se disponha já de uma rede rodoviária que não sei onde se encontre melhor e mais desenvolvida em regiões semelhantes, dispondo ainda de rápidos e cómodos meios de transporte, o Estado prossegue na pavimentação da estradas, na construção de pontes, no apetrechamento de cais e meios de transporte.
Finda a realização das maiores obras de irrigação existentes na Província, novos planos entraram imediatamente em execução, aumentando assim as possibilidades de sustento e de bem-estar para um maior números de habitantes.
No campo da assistência sanitária, melhoraram-se de uma forma digna do maior elogio as condições de vida em Velha Goa, em Sanguém, em Canácona e em várias localidades dantes infestadas pelo sezonismo e que hoje dele apenas têm a triste recordação.
Construíram-se hospitais e dispensários, não só por conta do Estado como pela iniciativa, civismo e patriotismo dos particulares, procedimento que nunca será por demais louvado.
Abriram-se escolas e instalaram-se serviços públicos. Cuida-se da electrificação de cidades.
O comércio, graças às cautelas, garantias e estímulos do Governo, pôde largamente desenvolver a sua actividade, encontrando-se em situação desafogada que por toda a parte me foi assegurada. As antigas e limitadas indústrias fortaleceram-se e novos empreendimentos, alguns de grande vulto e projecção, asseguraram já ao Estado da Índia uma posição de relevo, caminhando para um futuro que se nos apresenta com todas as promessas de estabilidade e progresso.
Tudo isto explica a prosperidade económica e a situação financeira desafogada em que vivemos, dentro de uma virtuosa modéstia, de que não convém separar-nos. Não há fome nem desemprego. E esta verificação – feita no meio das labaredas sociais e económicas que o Mundo nos tem largamente oferecido – não poderá deixar de impressionar quem quer fazer um sereno exame de consciência.
(Continua)
AOS PORTUGUESES DA ÍNDIA (11)
AOS PORTUGUESES DA ÍNDIA – O SIGNIFICADO DUMA VISITA (Discurso proferido no banquete de despedida, no Salão Nobre do Primeiro Senado de Goa, em 11 de Maio de 1952) pelo Capitão de Mar e Guerra M. M. Sarmento Rodrigues - Ministério do Ultramar – 1954