E não queria deixar de referir quanto benefício poderá resultar, para o Estado da Índia, do estabelecimento da carreira regular de navegação marítima nacional para as Províncias do Oriente. É este mais um facto através do qual se alcança o valor da obra de restauração e financeira do nosso País, mercê da qual já foi possível ir restabelecendo a nossa antiga grandeza no mar e construir uma frota mercante que pode atender as necessidades não só das ilhas atlânticas e das províncias de África, como ainda se prepara para melhor apoiar os nossos interesses no Brasil irmão. E neste momento, ao lançar a primeira unidade na linha do Oriente, a que outro ou outros navios se seguirão em carreiras regulares, podemos estar certos de que novos horizontes, novas esperanças, se abrem para a intensificação das trocas comerciais e afectivas entre todas as províncias do Oriente e as restantes, actualmente privadas desses eficiente convívio.
Não tenhamos dúvidas, estamos numa época de renovação nacional. Nenhuma província portuguesa poderia ficar afastada desse movimento. A Índia não o tem estado e diante dela, assim o creio, abre-se um futuro que será o que nós quisermos.
No decurso desta minha romagem, hei-de procurar esclarecer-me sobre a melhor maneira de resolver alguns problemas deste Estado que dependem de intervenção ministerial. Não se pode esperar que o Ministro venha investido de poderes sobrenaturais para dar imediatamente uma boa e pronta solução a casos que porventura necessitem de estudo competentes e madura reflexão; mas certamente convenho em que é de toda a utilidade que matérias de certa monta beneficiem de uma dupla observação, de perto e de longe, no local onde surgiram e no isolamento dum gabinete. Assim espero ser útil.
Meus senhores:
Ninguém desconhece a minha antiga e grande simpatia pelos outros povos que vivem na Índia e são, portanto, nossos vizinhos neste subcontinente, é um sentimento nascido do convívio com muitos dos seus habitantes, do conhecimento das suas virtudes, das suas qualidades, dos seus sofrimentos e também da sua cultura. Por isso, já porque constitui nossa velha tradição no Mundo, já pelos motivos especiais que acabei de referir, não desejaria deixar de manifestar o grande apreço em que temos o estreitamento das melhores relações amistosas e de boa vizinhança, em todos os sectores – do económico ao cultural – tanto entre as populações como entre os Governos.
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Meus senhores:
Venho ao Oriente no mandato mais honroso que podia ser conferido a um português. Dizer dos sentimentos afectuosos que unem o Portugal da Europa e África ao Portugal da Ásia e da Oceânia. Testemunhar à Índia Portuguesa o afecto fraternal de todos os outros portugueses; trazer-lhes a saudação especial do Chefe do Estado, um grande português e um nobre militar que tanto recorda esta Província, onde bem marcou a sua passagem, deixando o nome gravado nas obras da terra e no coração da gente; dizer-lhes como o Senhor Presidente do Conselho manifesta uma carinhosa, desvelada, infatigável e contínua atenção pelos problemas da Índia, cuja resolução directamente acompanha com especial cuidado e insuperada clarividência; manifestar os sentimentos gerais de todos os portugueses, bem assinalado pelo universal aplauso a esta visita e pela comovente atenção que de toda a parte têm prestado à minha viagem – é um encargo tão grande que me enche de orgulho e tão afortunado que me causa a maior emoção.
Por circunstâncias várias, e apesar do Governo nunca ter deixado de olhar com o maior e bem testemunhado desvelo as Províncias do Oriente, assegurando-lhes uma boa administração, garantindo-lhes a tranquilidade, o prestígio, a segurança e a prosperidade, coube, pela primeira vez na nossa História, a honra de fazer esta visita de família a quem passou do melhor tempo da sua mocidade nesta sempre lembrada terra de Goa, cheia de recordações e de saudades. E das lembranças desses tempos, já distantes, não posso superar, envolta na mágoa duma ausência que não tem fim, a figura de quem tive a honra de acompanhar nesse período, o íntegro e grande Governador Mariano Martins, um grande amigo da Índia e de todos nós.
Meus senhores:
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Aqui floresceram virtudes de santos – de S. Francisco Xavier a S. João de Brito e ao Venerável Padre José Vaz – e de tantos outros mártires e evangelizadores; aqui se cimentaram laços indissolúveis entre povos diferentes, dos quais Timoja e Crisna Sinai foram altos expoentes; aqui se forjou a têmpera dos grandes heróis, como Albuquerque: a Índia, enfim, devia ser o próprio estro de Camões.
Em nome do Povo Português que represento e que, não podendo vir, me acompanha em espírito, dos seus Chefes, do seu Governo, saúdo comovidamente a Índia Portuguesa, de Goa a Damão e Dio, nos seus filhos, cristãos, hindus, maometanos, parses e de outras religiões, vivendo neste Estado ou honrando a sua Pátria em terras estrangeiras, sem distinção de raças, credos ou fortunas, portugueses herdeiros e depositários de um tesouro de humanidade e cultura que nem com a vida, que por terrena é transitória, vos poderão roubar: a eternidade da Pátria Portuguesa.
(Fim)
AOS PORTUGUESES DA ÍNDIA (03)
AOS PORTUGUESES DA ÍNDIA – NA SALA DOS VICE-REIS (Discurso proferido em Goa, na sessão solene de 24 de Abril de 1952) pelo Capitão de Mar e Guerra M. M. Sarmento Rodrigues - Ministério do Ultramar – 1954