Mas como poderíamos todos nós, os que representamos e defendemos uma cultura, esquecer os que antes da fundação do organismo lhe deram a própria justificação para a sua existência porque foram a própria cultura?
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Porque não haveríamos de deixar de referir os que construíram e defenderam as fortalezas e edificaram os templos, com patriotismo, devoção e engenho, na África Negra, na Abissínia, na Arábia, no Golfo Pérsico, em toda a Índia, em Ceilão, na Birmânia, no Sião, na Malásia, nas Moluscas, na China, no Japão, no Pacífico; os que descobriram e civilizaram as terras incultas. Nesta teoria incomparável de homens e de valores não poderia faltar Camões, estro que só a Índia poderia ter modelado; nem D. João de Castro, rebatendo Ptolomeu e verificando Plínio, o incansável investigador de todas as coisa que tocam ao céu, mar e ar, do mar tirando tudo quanto pôde assim por ave, peixe e ervas para o conhecimento das terras; nem a ciência de Pedro Nunes, o genial criador dos nossos métodos de navegar; nem Duarte Pacheco e o seu Esmeraldo; nem Garcia da Orta, estudando e publicando na Índia os seus vastos conhecimentos sobre botânica; assim como João de Loureiro, o da «Flora Cochinchinensis».
Com afoiteza poderemos dizer que os descobrimentos abriram as portas, por milénios cerradas, à corrente livre e franca dos conhecimentos científicos, à sua troca.
Para o Oriente foi levada toda a ciência náutica portuguesa, uma ciência que escorraçava as lendas e media corajosamente o céu e a terra, dimanada da Junta dos Coamógrafos e trazida pelos pilotos que conduziam os navios pelos astros, esses mesmos astros de que a ciência contemporânea pouco mais sabia do que o nome. A Astrologia passara, como a Mitologia, para os domínios da Literatura.
Foi uma verdadeira cruzada de cultura. Do Atlântico aos confins dos mares orientais fundam-se colégios, seminários, universidades. Ternate, Salsete, Mascate, Ormuz, Cochim, Angediva, Damão, Baçaim, Chaul, Mangalor, Cananor, Calicut, Ceilão, foram dos mais importantes centros de estudos portugueses no Oriente.
Numa festa académica realizada em 1584 na Universidade de S. Paulo – diz-nos Cortês Pinto, no seu primoroso estudo «Da Famoso Arte da Imprimissão» – houve discursos de estudantes pronunciados em 16 línguas nativas! Isto dá-nos bem uma ideia do que foi a transfusão de culturas, para a qual não se estabeleceram restrições – bem pelo contrário – de emprego de línguas. Não se poderia conceber mais perfeito intercâmbio.
Um dos mais poderosos elementos que concorreu para esta difusão foi a imprensa. E não se diga que ele teria de vir com os primeiros navegadores. Em primeiro lugar, estes não poderiam ser outros além dos portugueses, pois só eles possuíam os conhecimento científicos adquiridos penosamente, persistentemente, esquadrinhando os mares, observando os astros, descobrindo as leis dos ventos. Mas a este exclusivismo haveria ainda a acrescentar o facto de os portugueses terem tido a primazia de editar estudos e trabalhos nas tipografias que trouxeram para o Oriente, em português e línguas nativas, e alguns dos autores nativos, séculos antes – é ainda Cortês Pinto que o afirma – de em muitos países da Europa se ter publicado qualquer livro.
À cultura nenhum sector escapou.
Foi a língua, esse maravilhoso instrumento, que o isolamento e o clima por vezes cristalizaram ou alteraram, conservando-lhe as saborosas formas antigas ou enriquecendo-a de novos e capitosos aromas tropicais; e a arquitectura das casas e dos templos e a comida e os folgares que da Indonésia a Moçambique revelam ao mesmo tempo a pujança e a constância dum módulo central e a plasticidade acolhedora nas variações de sabor regional; influímos na arte da guerra, no vestuário, nos utensílios, na zoologia, na agricultura. Transplantámos tanto árvores como os costumes. Os cantares portugueses, a pintura e língua portuguesa penetraram nas próprias florestas da Insulíndia e ainda ali o conservam.
E tudo isto não era obra desordenada. São verdadeiros planos de acção cultural alguns regimentos dos reis soa capitães das armadas. Ensinava-se sistematicamente a comer, a dançar, a rezar. E sempre docemente, palavra muito repetida nas instruções reais.
Meus Senhores:
É um prazer, para quem tão pouco se pode cultivar, ser aqui recebido e conviver com quem tanto contribui para a elevação da própria cultura. Como homem de Estado faço o que poço para que ela tenha a primazia nas coisas terrenas deste nosso País. Por ela nos afirmámos e por ela persistiremos.
João de Barros é peremptório: As armas e padrões portugueses postos em África e na Ásia e em tantas outras ilhas fora de repartição das três partes da terra, materiais são e pode-as o tempo gastar: mas não gastará doutrina, costumes, linguagem, que os portugueses nesta terra deixaram.
Podemos tranquilizar o espírito de João de Barros e completar-lhe a douta sentença que tudo isso que ele tanto prezou, e a que nós hoje chamamos cultura, não só perdura como floresce nesta Índia Portuguesa, para honra dos seus filhos e glória do nosso Portugal.
(Fim)
AOS PORTUGUESES DA ÍNDIA (08)
AOS PORTUGUESES DA ÍNDIA – NO CENTRO DA CULTURA PORTUGUESA DO ORIENTE (Discurso proferido em Goa, no Instituto de Vasco da Gama em 2 de Maio de 1952) pelo Capitão de Mar e Guerra M. M. Sarmento Rodrigues - Ministério do Ultramar – 1954