NA SALA DOS VICE-REIS
(Discurso proferido em Goa, na sessão solene de 24 de Abril de 1952)
São mais do que cinco séculos de história que, neste momento da mais alta emoção patriótica, nos acompanham, cercam e exaltam. É a presença viva, materializada, da razão de ser de um povo que foi luz e foi verbo; que sacrificou a sua carne em holocausto à sua alma; que nasceu como ideal num canto ignorado do Mundo e se espalhou pela Europa, pela África, pelas Américas, pela Ásia, pela Oceânia. Que descobriu mundos e conquistou espíritos. Eis a Nação Portuguesa.
Mais espírito do que matéria. Força que atrai e não subjuga. Chama que aquece mas não queima. Portugal foi tanto o velho condado simbólico, como é a Beira altiva, o Algarve do Sul e as ilhas do Atlântico e a Guiné e Angola e Moçambique; como é a Índia, Timor e Macau. Terras e gentes.
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A Índia acolheu em si própria, no torrão sagrado de Goa, nas pedras enobrecidas de Damão e de Dio, a mais fulgurante epopeia de humanidade que os tempos modernos conheceram. Foi para aqui que se voltaram os pensamentos inspirados dos primeiros portugueses, dos verdadeiros criadores do nome português; foi na Índia que primeiro veio a tomar forma, incarnando, o génio dum povo missionário que por sua fraternal e generosa presença dominou pelo afecto e repartiu sem reservas os bens morais que possuía; que assimilando com doçura e sem orgulho, e amoldando-se sem baixeza ou corrupção, soube enriquecer o seu património cultural e elevar a si novos espíritos; que aglutinou, enfim, no mesmo bloco a flor da sua e de outras civilizações, fazendo com ela uma só Pátria, una, perfeita, indissolúvel.
Fusão de que só resultaram benefícios para a contextura duma Nação. Por isso ela, nos seus fundamentos e na sua essência, é a mais rica de conteúdo, a mais pujante de humanidade e compreensão, a mais estável e segura na sua razão de ser, de quantas a história da Humanidade viu gerar. Nação em que a força das armas não impera, como nunca imperou, e que tem atravessado os mais perniciosos períodos da sua história e presenciado à sua volta as maiores convulsões sociais e políticas, por vezes verdadeiros cataclismos internacionais, firme no baluarte inexpugnável da sua unidade.
Todos nós, que nos encontramos neste momento rodeados pelos símbolos grandiosos duma história sem par, que do alto da sua majestade, através dos séculos nos contemplam e nos animam, nobres antepassados que vieram, em sucessão ininterrupta afirmando a continuidade duma Nação que se renova e a quem representam nas suas alternâncias de triunfos e desastres – todos nós, aqui presentes, não poderíamos, por mais que a nossa vontade de homens de uma época tão eivada de materialismo o exigisse, furtar-nos à evocação dum passado que nos ilumina; que, sem nos cristalizar, nos dá confiança para prosseguir; que nos enche de pasmo, nos conforta no que somos e nos anima para o que nos haveremos de ser.
A mim, que venho do Portugal da Europa, enviado por um Governo que tem atrás de si toda a tradição da vida nacional; Governo que representa Portugal em toda a sua extensão temporal e espiritual, com todas as suas parcelas de aquém e de além-mar; Ministro que recebeu a incumbência expressa de cada uma para a todas representar nesta solene visita – não poderá neste momento outro sentimento dominar-se além da comoção de ver perante mim, perante vós, perante o que represento, perante o que representais, baixando daquelas figuras venerandas para nos envolver, a própria alma da Pátria, dos tempos de Ourique, de Aljubarrota, de Benastarim, de Massangano, de Chaimite, alma por vezes encarcerada em cativeiros efémeros, na Europa, ou na Oceânia, mas nunca subjugada e sempre em ressurreição heroica. Eis o que vejo na sequência desta nobre linhagem onde encontramos dos maiores vultos da História Universal: a eternidade e a glória dum povo de diversas raças e de diversas crenças, mas um só ideal de vida: a Nação Portuguesa.
Chegamos assim aos dias de hoje. Depois de períodos de prosperidade terem alternado com épocas de desventuras; passadas quadras históricas em que a paz e bem-estar pareciam ter cristalizado e ser a regra do nosso viver; sucedendo-lhes anos perturbados de desmandos e fraquezas – todas estas inconstâncias tão próprias da condição humana – o nosso País encontra-se em situação que só nos pode envaidecer. Constituímos um dos mais sólidos agregados sociais que no Mundo existem, pela força da nossa vontade, pela forte e coesa estrutura da nossa orgânica, pelos inquebrantáveis laços duma fraternidade que tem sido sujeita às mais duras provas e sempre se mostrou inabalável.
Somatório de pequenas forças que fazem uma grande Nação: é esta uma das características em que pouco reparamos, mas que contém o próprio fundamento do nosso bem-estar. Cada uma das parcelas portuguesas, isolada no Mundo, poderia valer pouco; mas dentro do sistema que laboriosa e amorosamente construímos e aperfeiçoámos durante séculos, é um elemento de real valor. O Portugal de hoje é novamente respeitado, tanto pelo seu potencial económico como pela força moral que representa, em todos os campos de acção em que se estende a nossa actividade. E cada um de nós é um elo.
Sempre prontos a prestar concurso a todas as iniciativas generosas ou que se empenham no desenvolvimento ou na preservação de valores de civilização, temos a consciência de que não nos move qualquer interesse egoísta pessoal, mas apenas o sincero desejo de concorrer para o melhor entendimento entre todos os povos verdadeiramente amantes da paz e das liberdades essenciais à vida humana.
--------------------------------------------------------------------------------------------Assim temos podido viver sem artifícios, nem hesitações, nem receios. Apenas uma consciência firme na razão inatingível da nossa honrada posição. O Mundo já o tem reconhecido e, pela boca das mais ilustres figuras da actualidade, tem feito justiça a este povo que, sem fazer ouvir o troar dos seus canhões, leva a sua voz clara e respeitada às mais elevadas assembleias internacionais, destemidamente marcando a sua posição entre dúvidas, não cedendo a pressões, não entronizando mitos, não reconhecendo perigos imaginários, mas também não recuando perante os compromissos que conscientemente entende ser necessário assumir.
(Continua)
AOS PORTUGUESES DA ÍNDIA (01)
AOS PORTUGUESES DA ÍNDIA - pelo Capitão de Mar e Guerra M. M. Sarmento Rodrigues - Ministério do Ultramar – 1954