19 de novembro de 2017   
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Os portugueses dados à reflexão e animados de consciente patriotismo estavam praticamente de acordo acerca da situação a que o País chegara. Discutiriam ainda as causas da nossa decadência ou atraso; dividir-se-iam quanto aos remédios que podiam ou deviam ser aplicados com êxito, e até quanto à forma de tratamento. Mas que a origem de tantos males estivesse na desregrada vida política e nas tradicionais deficiências da Administração; que derivasse da pobreza material, do nosso modo de ser não corrigido pela educação e do atraso da instrução pública; que pudesse atribuir-se à indisciplina dos portugueses ou até ao gigantesco esforço que houvemos de fazer, através dos séculos, para descobrir, ocupar, administrar e civilizar territórios em desproporção com o potencial humano e os recursos normalmente disponíveis — em nada se alterava a conclusão geral. Decerto não deixaram nunca de afirmar-se,
em todos os sectores ou modalidades de vida, homens que honrariam Portugal e seriam para sempre lustre da sua história e da raça portuguesa. A crise não secara as fontes dos valores individuais, nem mesmo felizmente extinguira as reservas espirituais do nosso povo; ela atingira, porém, a nossos próprios olhos e no conceito europeu, as manifestações de vida colectiva, a unidade Nação.
Nós estávamos colocados diante de um intrincado de questões e dificuldades que se repercutiam umas sobre as outras e umas às outras se agravavam. Eram como a meada a que se perdeu o fio, o labirinto sem guia, a imensa mole a transportar ao alto da montanha. Diante delas homens e instituições houveram de confessar-se impotentes; e de tantos esforços despendidos e perdidas boas vontades a única verificação útil foi não ser possível encontrar solução de conjunto para tão difíceis problemas. Em tais circunstâncias, e tendo o levantamento do Exército criado por si mesmo o mínimo de condições políticas indispensáveis, o que se impunha era escolher o princípio da acção. Eu não tinha a pretensão de partir de conclusões puramente científicas — a investigação não é de exigir aos homens de governo — mas tinha perfeita consciência da viabilidade do processo quando procurei, nas primeiras palavras dirigidas aos oficiais da guarnição de Lisboa, apresentar em esquema o conjunto dos grandes problemas nacionais, designando-os por problema financeiro, económico, social e político. Sem perder de vista a complexidade e dependência de uns problemas em relação aos restantes, nem o condicionalismo próprio de cada um, aquele enunciado traduzia uma sistematização, essa talvez grosseira, e claramente também uma ordem de preferência, essa decisiva na acção.
Assim cuidava que a reforma financeira arrumaria um problema e facilitaria a solução de outros; mas em verdade eu tinha em vista também, e sobretudo, alcançar uma das melhores garantias da independência do País. É ainda hoje para mim motivo de estranheza que só muito raros portugueses (ao menos do meu conhecimento) se apercebessem do valor político da obra realizada naquele domínio. E, no entanto, pelas suas ruins finanças e irregular administração, o País foi julgado nos pretórios da Europa, umas vezes com alguma justiça, outras sem ela. Pelas suas faltas de devedor e urgências de dinheiro teve de aceitar contratos leoninos e acordos cujas cláusulas se afastavam do teor normal entre pessoas ou Estados solventes. Com a expectativa de novos pedidos de empréstimo se pretextaram conluios internacionais, em que se viu contarem pouco os direitos, a integridade, a soberania de uma Nação, suposta independente, segura e garantida. Tudo isso é História; e se esse passado, cujos traços mais humilhantes temos, uns após outros, tentado apagar, não deve incompatibilizar-nos com o capital estrangeiro, a que muito devemos e de que muito precisamos, impõe-nos no entanto uma linha de conduta que, mesmo à custa de grandes sacrifícios, não possa jogar contra o País e seja antes um dos factores da sua defesa.


Os Grandes Problemas Nacionais (15)

(«Prefácio da 4ª edição» — «Discursos», Vol. I, págs. VI-VIII, VIII e XIII-XIV) - 1948

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