23 de abril de 2017   
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É necessária a política no governo das nações, mas fazer política não é governar. Para além do ambiente moral de confiança e de apoio, criado à volta de quem dirige os destinos do País, há a realidade viva dos problemas desse mesmo País, e estes ou são resolvidos ou não são, e, se não são, o povo não é governado. Ora a absoluta esterilidade da política considerada como fim em si mesma não foi suficientemente demonstrada pela experiência ante alguns espíritos a quem, em regra geral repugna o trabalho sério, mas a quem fascina a agitação, o ruído, as vãs promessas, o simples efeito político.
O conflito toma aqui outro aspecto — diríamos que é entre a improvisação e o espírito de sistema, mas, assim considerado, não é só conflito do Governo com este ou aquele, é conflito do Governo com os serviços e com a Nação.
A maior dificuldade que se tem encontrado em pôr em ordem alguns sectores da administração pública é proveniente da verdadeira hostilidade do nosso espírito a um programa de acção. Tudo, na administração do Estado e na administração local, se pretende deixar à improvisação do momento, aos desejos da ocasião; a disciplina dum plano estudado, aprovado, assente, que se executa anos sucessivos custa-nos a suportar como violência ao nosso temperamento. Por isso muitas coisas se prometeram e se não deram, muitas se começaram e não concluíram, muitas se diziam próximas quando se não sabia ainda como se havia de pegar nelas. Quantas vezes se anunciaram ou deram verbas para obras em relação às quais nenhum estudo ou projecto havia que permitisse supô-las possíveis ou avaliar do seu custo! O mesmo nos museus, nos palácios, nas estradas, nos portos, na hidráulica agrícola, no fomento económico, na instrução, no crédito, no armamento do Exército.
Este processo de seriar os problemas, de estudar os projectos para depois executar, torna a preparação mais lenta e, se bem que a execução seja mais rápida e certa, não se presta nem às promessas nem aos favores. Em compensação, quando o Governo diz que alguma coisa se vai fazer, é seguro que ela se faz.
Talvez seja mais clara agora a muitos olhos a política do Governo:
quando se insiste em que as finanças equilibradas chegam a ser condição da independência e integridade pátria; quando se pretende cimentar entre todos os bons portugueses verdadeira união nacional; quando se procura dar a este País a plena consciência do seu valor e do seu destino para que esteja moral e materialmente preparado a reagir na hora própria, não se faz literatura política, defendem-se pela melhor maneira possível os mais altos interesses de Portugal.
O nosso princípio de subordinar as grandes realizações a sistema de trabalho previamente definido obriga, como a lei manda, a estabelecer planos e projectos fundamentais acerca dos problemas postos. Isto não quer dizer que a execução dependa de estarem aprovados todos os projectos de obras e as características de todas as aquisições a fazer; mas nós somos muito fracos para podermos ser desonestos, e para garantir que as coisas se farão e o seu preço será regularmente satisfeito precisamos de fazer ideia geral das necessidades, do seu custo, da ordem mais conveniente a seguir na sua satisfação, nos meios de que se há-de dispor e do prazo por que há-de estender-se a execução dos planos aprovados. Salvo no que respeita à defesa nacional, pelos motivos de política superior atrás esboçados, em tudo o mais se tem de distinguir o que pode ser adiado e o que exige imediata realização, o que pode traduzir-se a breve trecho em aumento directo ou indirecto da riqueza e aquilo que representa apenas melhoria dos serviços, maiores comodidades ou despesas de puro luxo, o que se traduzirá em grandes somas de trabalho nacional ou o que, pelo contrário, representa apenas aquisição no estrangeiro e consequente exportação de ouro.
Não está na mão do Governo fazer tudo o que quer em prazo curto; a economia nacional é que em última análise condiciona a realização dos nossos planos, e eu não sei se admire a pressa que parece não permitir esperem breves anos coisas que já esperaram largos séculos.


Os Grandes Problemas Nacionais (10)

(«O momento político» — Nota oficiosa publicada nos jornais de 20 de Setembro — «DISCURSOS», Vol. II, págs. 72-74, 87 8 95-97) - 1935

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