22 de outubro de 2017   
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De Sir Ronald H. Campbell
Ao Doutor Oliveira Salazar

Embaixada Britânica, Lisboa, 16 de Junho de 1943.
Secretíssimo.

EXCELÊNCIA:
No decurso da nossa conversa em 8 de Junho V. Ex.ª exprimiu a opinião de que podia ser conveniente rever, na presente conjuntura, as conclusões a que se chegou nas conversas anglo-portuguesas de Estado Maior realizadas em Londres há alguns meses.
V. Ex.ª recordou-me que aquelas conclusões tinham sido baseadas na hipótese de que a Alemanha podia invadir a Península Ibérica e que o Reino Unido não estava então suficientemente forte para auxiliar Portugal, de modo efectivo, a enfrentar essa ameaça.

2. V. Ex.ª notou, segundo eu entendi, que esta hipótese já não era de considerar. Desde a ocupação do Norte de África pelos Aliados a Alemanha, mesmo que estivesse em condições de tentar a operação, dificilmente podia ter esperança de estabelecer uma posição no Estreito de Gibraltar. Por outro lado, o Reino Unido estava agora, e sob todos os aspectos, incomensuravelmente mais forte.

3. V. Ex.ª, por consequência, julgava que era de considerar se a decisão, a que se chegou nas conversas em Londres, de, no caso de invasão alemã, Portugal oferecer apenas uma luta simbólica no território metropolitano e estabelecer um centro de resistência nas ilhas do Atlântico, corresponderia ainda às circunstâncias da hora presente.

4. Transmiti por telegrama ao Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros as observações de V. Ex.ª. Tive agora instruções para comunicar que o Governo de Sua Majestade no Reino Unido as recebeu com muito interesse e que deseja aproveitar esta oportunidade para tratar com V. Ex.ª de certos assuntos da mais alta importância, os quais constam das alíneas seguintes.

5. No começo da guerra, em comunicação com o Governo de Sua Majestade, o Governo Português adoptou uma posição de neutralidade. Nessa altura a guerra estava ainda longe de Portugal; a ameaça submarina alemã ainda não tinha tomado vulto; e o Reino Unido, em virtude da sua própria fraqueza, não estava em condições de dar a Portugal um auxílio adequado contra quaisquer ataques que a Alemanha pudesse lançar contra os interesses de Portugal.

6. Posteriormente, as dificuldades do Reino Unido aumentaram com a derrota da França e a chegada de forças alemãs à fronteira franco-espanhola. Nessa fase da guerra o Governo Português pôde exercer uma influência valiosa junto do Governo Espanhol no sentido de assegurar a manutenção da neutralidade da Espanha. O Governo de Sua Majestade reconhece com gratidão o auxílio que a este respeito o Governo Português tem prestado desde essa data com tão boa vontade e de modo tão efectivo.

7. Nos últimos meses, contudo, a situação da guerra mudou muito em favor do Reino Unido e seus Aliados: e o Governo de Sua Majestade, partilha inteiramente a opinião de V. Ex.ª de que agora o perigo de uma invasão alemã da Península Ibérica virtualmente desapareceu.

8. Há, todavia, outro factor na situação geral da guerra que está a suscitar a mais séria consideração por parte do Governo de Sua Majestade. A campanha submarina alemã evolucionou a ponto de seriamente impedir o pleno desenvolvimento das forças das Nações Unidas no campo de batalha. O Governo de Sua Majestade já não receia que esta ameaça obste à vitória final dos Aliados, mas ela é ainda capaz de demorar seriamente tal vitória.

9. O Governo de Sua Majestade reviu a situação à luz dos factos acima mencionados e em relação à sua aliança com Portugal. Chegou à conclusão de que o uso de facilidades nas ilhas portuguesas do Atlântico, particularmente nos Açores, para o emprego de aviões e de navios de superfície seria um factor decisivo na rápida derrota da campanha submarina alemã no Atlântico e, por consequência, uma contribuição vital para a rápida vitória das Nações Unidas.

10. As facilidades a que o Governo de Sua Majestade se refere especialmente são as seguintes:
a) Facilidades em S. Miguel e na Terceira para o emprego de aviões de reconhecimento;
b) Facilidades sem restrições para o reabastecimento de combustível, tanto em S. Miguel como no Faial, para os navios de escolta.

11. As vantagens militares que adviriam destas facilidades para o Governo de Sua Majestade estão especificadas no Anexo.

12. O Governo de Sua Majestade decidiu, por consequência, em nome da Aliança que há seiscentos anos existe entre Portugal e a Grã-Bretanha, pedir ao Governo Português para lhe prestar a sua colaboração concedendo-lhe as facilidades de que tem necessidade nos Açores. Com o maior empenho confia em que o Governo Português dará a sua concordância de princípio, deixando para ulterior discussão e mútuo acordo as precisas condições que hão-de regular a concessão de tais facilidades.

13. Se o Governo Português quer, em princípio, aceder ao apelo feito na alínea 12 acima referida, o Governo de Sua Majestade está pronto a discutir com as autoridades militares portuguesas as disposições para o auxílio contra um possível ataque aéreo alemão ao território metropolitano português e para a completa protecção da navegação portuguesa e das importações portuguesas por mar.

14. No caso de qualquer ameaça a Portugal e ao Império Português em consequência de uma resposta afirmativa do Governo Português ao apelo que lhe é feito agora com base na Aliança, estou autorizado a informar V. Ex.ª de que o Governo de Sua Majestade no Reino Unido está pronto, no só a garantir a retirada das suas forças dos Açores, no fim das hostilidades, mas também a dar garantias quanto à manutenção da soberania portuguesa em todas as colónias portuguesas.
Estou autorizado a acrescentar que o Governo de Sua Majestade na União da África do Sul se associou a estas garantias, e que há razão para esperar que garantias semelhantes serão prestadas pelo Governo dos Estados Unidos.
Aproveito esta oportunidade para renovar a V. Ex.ª os protestos da minha mais alta consideração.

R. H. Campbell.

Política Externa Portuguesa (06)

Documentos relativos aos acordos entre Portugal, Inglaterra e Estados Unidos da América para a concessão de facilidades nos Açores durante a guerra de 1939-1945, MNE, Lisboa 1946

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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