13 de dezembro de 2017   
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(Continuação)

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«A victória será nossa (das nossas ideias). Quando? Sei lá, Deus do Céu! Hoje, amanhã, daqui a um século ou dois, quando à Providência aprouver! O dever é que é de hoje, como de ontem, como de sempre. E, cumprido ele, suceda o que suceder, cada um de nós tem já vencido. Bonnum certamen.» (Salazar, Carta a José Nosolini, 25-VI-915).

Já no ano distante de 1915, em carta a um amigo e companheiro de ideal, Salazar tomava como divisa o «bonnum certamen» do texto de S. Paulo — o Apóstolo a quem o aço de uma espada executou, consagrando pelo martírio o triunfo da sua férrea vontade.
Do dever, cujo cumprimento é a sua própria vida, ele mesmo havia de dar ascética visão, em 1928; «É a ascensão dolorosa de um calvário. No cimo em morrer os homens, mas redimem-se as pátrias».
A vontade inquebrantável de Salazar foi alicerce do seu longo mandato. E quem, no trabalho de cada dia, vislumbrava a génese das decisões tomadas e o acompanhamento do percurso da sua execução, dava-se conta do poder e da força daquela vontade.
Parece até que, dos seus grandes dotes naturais, foi a vontade o que mais o acompanhou até ao fim. Já ferido de morte pelo acidente vascular cerebral que iria vitimá-lo, um médico neurologista de autoridade mundial, que longamente o observara, alude ainda à força que se mantinha da sua «vontade indómita».
Da sua capacidade inata de tratar com fria decisão os interesses do Estado sem lhe secar, nas coisas pessoais, uma grande sensibilidade fui muitas vezes testemunha. Vi-o (como adiante refiro) passar, subitamente, de uma longa conversa sobre os casos pessoais de gente humilde em que extravasava a sua bondade de coração, ao inflexível julgamento de problemas em que a razão de decidir tinha de brotar, exclusivamente, do interesse nacional.
A coragem das atitudes era-lhe tão natural como respirar: ressumava, naturalmente, da sua doação ao serviço do país, na consciência de cumprir um dever. E a serenidade que manteve perante perigos e combates de que não ignorava a gravidade significa que, a par desta, crescia aquela coragem.
O sentido espartano da vida pública e o desapego de bens e interesses materiais já o leitor de si os encontrará pelos caminhos deste homem: que mandara que o Soilari Allegro (um dos seus colaboradores mais próximos), ao ir desempenhar funções de consulta jurídica como Auditor da Junta de Crédito Público, recebesse apenas um dos vencimentos enquanto se manteve como seu Secretário; que, contra a interpretação dos Serviços, definiu que tinha de pagar renda, e a pagou, pela residência de férias no Forte de Santo António «porque a Constituição dizia que o Presidente do Conselho tinha direito a uma residência, mas não dizia que o tivesse a duas»: que pagava do seu bolso a conta dos hotéis; que exigiu viajar como passageiro normal dos TAP, quando fez de avião o percurso até ao Porto, numa sua deslocação oficial; cuja fortuna, ao cabo de mais de quarenta anos de Governo, não atingia as duas centenas de contos.

(Continua)

SALAZAR - testemunhos... (05)

SERVIR – Capítulo II do livro do Dr. José Paulo Rodrigues (subsecretário de Estado da Presidência do Conselho de 1962 a 1968), "Salazar – Memórias para um Perfil" – 2ª edição, pág. 21 a 22

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
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