25 de março de 2017   
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A HIPÓTESE DE UMA GUERRA DOS PAÍSES AFRICANOS CONTRA PORTUGAL

«Se se refere a hostilidades políticas, já há muito que foram desencadeadas contra nós pelos países mais extremistas do bloco afro-asiático, mas aparte alguns desagradáveis incidentes daí não nos tem advindo prejuízo significativo. Se se refere a hostilidades económicas ou comerciais, direi que o nosso comércio com o continente africano pouco excede 1 % do total do nosso comércio externo, pelo que nesse campo também não será de monta o prejuízo. Mas se por hostilidades quer significar hostilidades militares, isto é, uma guerra contra nós, então farei algumas observações. Em primeiro lugar, não é fácil fazer uma guerra: juntar dez mil homens não é a mesma coisa que organizar dez mil soldados: e são precisos imensos recursos e meios de toda a espécie. Em segundo lugar, não se vê bem donde poderão vir as forças militares necessárias. Fornecidas pela Argélia? Mas isso seria a catástrofe para os países vizinhos dos territórios portugueses: dez ou vinte mil argelinos instalados nos Congos ou no Tanganica poderiam tomar praticamente conta destes países, coagir os respectivos Governos, etc. Poderão então tais forças ser fornecidas pela África Negra? Mas onde estão os exércitos desses países? E será no seu interesse criá-los e utilizá-los para combater por objectivos de outros e não próprios? Finalmente, eu queria formular algumas perguntas: onde a legitimidade de uma guerra contra Angola ou Moçambique? Com que fundamento legal ou ideológico poderiam os países de Adis-Abeba fazer uma guerra contra terceiros? Que ligação há entre tal guerra e o conceito de auto-determinação? Que se diria se Portugal e a Espanha e a França e outros declarassem que iam fazer uma guerra para libertar os Estados Bálticos, que a União Soviética pura e simplesmente anexou pela força, sem fazer plebiscitos, ou eleições, ou consulta às Nações Unidas? Que se diria em tal caso? Finalmente, desejo perguntar isto, se os países de Adis-Abeba rompessem hostilidades militares, acharia a comunidade internacional que tal facto era justo, legítimo e de harmonia com a Carta da ONU? Se a resposta for afirmativa, então haverá que concluir que se avizinham tempos catastróficos para todo o mundo.»

Política Externa Portuguesa (04)

(Entrevista concedida pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros Dr. Franco Nogueira, e publicada pelo «O Globo» do Rio de Janeiro, em 26 de Julho de 1963).

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