20 de setembro de 2017   
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A Europa está bastante inquieta e um dos sinais do seu nervosismo é sem dúvida o ciúme que provocam manifestações correntes de boa amizade internacional e a necessidade de reafirmações sucessivas dos mesmos sentimentos, como se os tratados e os acordos não vivessem da confiança na palavra dos Estados mas se alimentassem como derriços de constantes declarações sentimentais. Nós não adoptamos porém essa forma de proceder, nem na verdade tenho nada a acrescentar ao que disse sobre a aliança inglesa em 6 de Julho do ano passado. Às mesmas necessidades e interesses correspondem os mesmos sentimentos e compromissos: daqui não se falta ao devido; e da parte da Inglaterra estou certo de que também não.
Em todo o caso não fujo a notar que nos últimos meses, por vezes em dias seguidos, jornais da esquerda em Inglaterra (é certo que de muito baixa cotação) agridem Portugal, convidam o Governo britânico a rever, como quem diz a abandonar a aliança, sugerem-lhe se apodere para a sua segurança de territórios nossos, e parlamentares da oposição insistentemente o provocam a responder sobre a validade dos tratados e a sua aplicação às colónias, não certamente pelo gosto de ouvirem confirmar a plena validade de compromissos antigos.
Ora nós sempre considerámos por nossa parte a aliança como negócio de Estado e não fruto de simpatias de partido, e de que assim também tem sido do lado inglês temos a prova nas declarações terminantes que a esse respeito foram feitas por membros da actual oposição quando no Governo, com tal força se lhes impunha, juntamente com as responsabilidades dos interesses britânicos, a comunidade de interesses anglo-
-portugueses em que se funda a aliança.
Por esta razão, mencionando o facto para acusar-lhe a estranheza, não o tenho considerado como suficiente para causar-nos preocupações; antes o tenho atribuído à circunstância de começarem a aparecer no regime político inglês processos de combate que caracterizaram desde o princípio as democracias continentais. Supondo porém que me engano neste juízo, mais acertada ainda se mostra a política que seguimos
— valorizar-nos, de modo que a nossa amizade seja sempre querida e o nosso valimento em favor deste ou daquele nunca nos seja imposto nem declinado, se oferecido.
A situação do Império Britânico no Mundo, a situação de Portugal no Atlântico e em África são factores suficientes para nos imporem por tempo imprevisível a mesma colaboração de aliados; e por este motivo consideramos da maior importância para ambas as nações que o Governo inglês haja tomado a iniciativa de mandar a Portugal uma missão militar que há várias semanas estuda com os nossos técnicos problemas de interesse comum. Há muito tempo se fazia sentir a necessidade de mais estreitos contactos, de assídua troca de conhecimentos e informações e até de maiores precisões no que toca ao funcionamento da aliança. Estas particularmente são-nos úteis e somos obrigados a atribuir-lhes o maior interesse, pondo-as, se necessário, na base de quaisquer negociações, pois sem elas não seria nunca fácil definir em Portugal qualquer política militar. E mais não é preciso dizer para inferir a perfeita solidez, na actualidade, dos laços que desde séculos nos unem à Inglaterra, sem prejuízo das boas amizades que a outros nos prendem.


Relações Internacionais: O Comunismo, Aliança Inglesa, Amizade Peninsular, Pacto do Atlântico (10)

(«Realizações de política interna — Problemas de política externa» — Discurso na Assembleia Nacional, em 28 de Abril — «Discursos», Vol. III, págs. 79-81) – 1938

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