18 de novembro de 2017   
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Nós somos, apesar da relativa vastidão do nosso Ultramar, uma pequena nação homogénea e razoavelmente estruturada, que há bastantes séculos tem consciência dos respectivos limites territoriais e humanos, de onde vem talvez a energia com que procura defender os seus e o escrúpulo com que respeita os alheios. A modéstia não nos inibe porém de falar, porque a razão não depende do número e a justiça não varia com o valor material das causas.
A imprensa da União Indiana, que é democrática e constitucionalmente livre, tem-se revelado bastante uniforme nos seus ataques a Portugal, e geralmente bastante hermética em relação ao restabelecimento da verdade que tentamos, quando a cada passo a vemos extraviar-se a nosso respeito e a respeito de Goa pelas informações inexactas e os injustos juízos. Alguns pequenos jornais que, no uso dessa mesma liberdade, ousaram discordar ou apresentar algumas restrições ao modo de ver oficial foram empastelados e assim impedidos de acreditar qualquer outra versão. É difícil fazer chegar, em tais condições, aos espíritos independentes da União uma palavra desapaixonada. Apesar de tudo, falarei, porque parece indispensável não deixar dissolver-se no azedume das paixões a essência de problemas sérios na vida e relações dos povos, e porque enfim nunca se sabe onde pode ecoar uma voz ainda que sob a impressão de clamar no deserto.
Algumas das concepções que nos levaram à Índia — políticas ou económicas desapareceram com o tempo que as fez surgir; mas deram lugar a outras realidades — as que se afirmam hoje. E estas realidades são: constituir Goa uma comunidade portuguesa na Índia; representar Goa uma luz do Ocidente em terras orientais. O território é apenas o espaço onde essa comunidade vive; a terra, o farol onde essa luz se acendeu. Os nossos interesses são puramente morais — primeiro de portugueses, em seguida de homens do Ocidente.
Tenho notado contradições na argumentação apaixonada da União Indiana e uma das mais gritantes é esta: para se arrogar o direito de absorver Goa, diz-se que esta é Índia, pela raça, pela religião, pela cultura; para se captar a simpatia dos goeses, promete-se-lhes que se respeitarão as actividades religiosas e os elementos culturais distintos daquela pequena comunidade. A verdade está porém no reconhecimento das diferenças e não no paralelismo das semelhanças. O pequeno Estado da Índia é efectivamente uma província de Portugal e precisamente aquela a que estão ligados alguns dos maiores nomes que a Nação Portuguesa pôde dar à História Universal.
Eis por que repugna à sensibilidade dos portugueses — e essa repugnância tem a sua expressão jurídica no texto constitucional — negociar a cedência de Goa e a cidadania portuguesa dos seus habitantes e não curar da sua defesa até ao limite das nossas forças.
Estas coisas, de ordem exclusivamente moral, podem parecer estranhas ao materialismo dos tempos e são contestadas pelos que alimentam desígnios contrários. Mas estes mesmos têm a prova de tais coisas corresponderem a uma realidade viva, no comportamento dos goeses, já não digo dos que habitam Goa, mas dos que vivem nos territórios da União Indiana: devendo-lhe o trabalho e naturalmente receosos das mais diversas formas de pressão, nem por isso abdicam da sua qualidade de portugueses.
Bem se sabe a dificuldade de arregimentar as poucas dezenas para as manifestações hostis...



POLÍTICA ULTRAMARINA (10)

(«Goa e a União Indiana» — Discurso proferido ao microfone da Emissora Nacional, em 12 de Abril) – 1954

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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