22 de outubro de 2017   
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As boas intenções de muitos esbarraram com a incultura e jacobinismo dos políticos avançados ou dos seus sequazes, e com a pusilanimidade dos partidos chamados conservadores. O facto é que pôde a cada momento sustentar-se, e com aparências de verdade, que a República Portuguesa era por essência anticatólica e a sua neutralidade uma mentira, caso grave para a República e para a Igreja num país de tradições e população católicas. O sectarismo dos Governos abriu feridas profundas na consciência da Nação, e a simpatia com que por toda a parte, fora dos centros políticos, foram recebidas as reacções de Pimenta de Castro e Sidónio Pais e a Ditadura Nacional tem aí boa parte da sua explicação.
Tenho observado como é inconveniente ao desenvolvimento e pureza da vida religiosa a intromissão da política na religião, a confusão dos interesses espirituais com os interesses materiais dos povos, da Igreja com qualquer organização que, actuando no terreno político, possa ser tomada como um partido, aspirando ou não ao Governo. Sobretudo num país como o nosso, de velhas tradições católicas mas duma religiosidade geralmente pouco esclarecida, e de um estreito feitio de espírito nas lutas partidárias, a actividade propriamente política da Igreja levanta-lhe e ao seu clero atritos e desconfianças graves que a prejudicam na acção puramente espiritual.
Devemos crer que Ela o sente e que só razões de peso para a sua própria existência a impelem em sentido reputado inconveniente para a expansão do seu credo e tranquilidade das consciências. O fenómeno que está no fundo desta atitude parece-me ser a negação, por parte dos Estados, das liberdades fundamentais que são condição de vida da Igreja, a irreligiosidade positiva que se esconde debaixo da neutralidade oficial e a abstracção de toda a limitação de ordem moral na actividade governativa. Se persistirem estas causas, serão inúteis todos os esforços para extinguir uma reacção incómoda mas no fundo legítima, e para tirar do campo político uma organização que será, apesar da sua boa vontade, uma força perturbadora.
É para todos evidente que o condicionalismo social português nos impõe como regime de relações com a Santa Sé a separação, sem prejuízo das relações diplomáticas e da Concordata no que respeita ao Padroado Português do Oriente. Nós estamos inibidos, pelas circunstâncias e situações criadas, de reparar, de indemnizar, de restituir além do que está feito; mas o restabelecimento das relações operado pelo Presidente Sidónio Pais devia ter como lógica consequência a aceitação expressa, pela Igreja, da separação que violentamente lhe foi imposta em 1911.


O Problema Político Interno: A NAÇÃO, O ESTADO E A IGREJA (01)

(«As diferentes forças políticas em face da Revolução Nacional» — Discurso à União Nacional, em 23 de Novembro — «Discursos», Vol. I, págs. 170 e 170-172) – 1932

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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