29 de maio de 2017   
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A evolução económica e social, as revoluções, os sistemas doutrinários, as deficiências, abusos e vícios do parlamentarismo, as influências desastrosas da Grande Guerra, exercidas em todos os domínios do pensamento e da acção, provocaram um pouco por toda a parte, e na Europa sobretudo, situações graves na constituição dos Estados e na vida das nações. Atacados na sua organização, nos seus princípios e tradições, pelas ideias, pelas paixões, pelos interesses anti-sociais ou antinacionais, os Estados europeus oferecem na sua vida interna e nas suas relações internacionais aspectos inquietadores de perturbação e de instabilidade. Dir-se-ia que as sociedades, abaladas nos alicerces históricos, correm o risco de perder a sua estrutura poderosa e a sua própria natureza antiga; pelo menos verifica-se que a máquina política, que funcionou, como pôde, em todo o século XIX e nos princípios deste, não se adapta, sem transformações profundas, ao ritmo da vida moderna dos Estados.
Sob o império das dificuldades, acções e reacções mútuas fizeram surgir tendências opostas nas correntes políticas e sociais, inevitavelmente, portanto, nas próprias formas da governação pública.
Observam-se de um lado as desordens cada vez mais graves do individualismo, do socialismo e do parlamentarismo, laivadas de actuações internacionalistas, e diante de umas e de outras acentua-se a passividade dos Estados e a impotência dos poderes públicos no jogo das funções constitucionais. De outro lado o próprio instinto de conservação desperta esforços no sentido do nacionalismo e do anti-individualismo, mas arrastados, na pendente natural das ideias e dos acontecimentos, para extremismos doutrinários e para ditaduras francas ou disfarçadas que, à parte a sua legitimação pelas necessidades do momento, representam uma anormalidade também.
A razão observadora e desapaixonada perscruta no meio de tantas confusões da época qual o caminho a seguir, e pressente que a salvação estaria em preparar modalidades de vida pública — constituições, digamos — pelas quais possam coexistir em paz e tranquilidade todos os elementos políticos e sociais, e sejam chamadas a uma actuação pacífica as diversas manifestações de vida colectiva que o nosso tempo fez surgir, sem que por isso se atinja a força do Estado, o seu poder de coordenação e de mando, a capacidade administrativa necessária ao progresso das nações. O desejo de encontrar as fórmulas do novo equilíbrio e de traçar as estradas do futuro domina o espírito dos homens de governo em todos os Estados, seja qual for o regime legal ou efectivo sob que estejam trabalhando.
Que fazer então? A atitude de aconselhada independência e neutralidade, aguardando que do simples embate das forças políticas surja o Estado futuro, é atitude imprevidente, indigna de governantes, falha de lógica, desconhecedora das realidades sociais: nunca barco abandonado à fúria de ventos contrários demandou porto de abrigo, e muitas vezes se despedaçou, ao tocar a terra, contra os rochedos da costa!
Que fazer então? Tomar resolutamente nas mãos as tradições aproveitáveis do passado, as realidades do presente, os frutos da experiência própria e alheia, a antevisão do futuro, as justas aspirações dos povos, a ânsia de autoridade e disciplina que agita as gerações do nosso tempo, e construir a nova ordem de cousas que, sem excluir aquelas verdades substanciais a todos os sistemas políticos, melhor se ajuste ao nosso temperamento e às nossas necessidades.


Os Grandes Problemas Nacionais (04)

(«Princípios fundamentais da revolução política» — Discurso na Sala do Conselho de Estado, em 30 de Julho — «Discursos», Vol. 1, págs. 70 a 72 e 76-77) - 1930

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