15 de dezembro de 2019   
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Pergunto a mim próprio se, no conflito enxertado na existência dos pequenos territórios portugueses do Indostão, não haverá causas diferentes daquelas que à primeira vista se enxergam. A política Ocidental tem-se desenvolvido para com a União Indiana amigavelmente, carinhosamente, no plano da expectativa de um comércio intenso, e também no plano mais elevado da preservação de um apoio económico e moral possível em caso de conflito. Seja porém qual for a importância que em tais casos represente o imenso subcontinente, não parece que a isso se possa reduzir o problema; antes as atitudes ou serviços entrevistos supõem que a solução de outro problema terá sido alcançada ou pelo menos rasgado o caminho para se alcançar.
A União Indiana, acaba de aparecer na história como entidade política independente, parece encontrar-se numa encruzilhada difícil, no mais alto ponto de uma grave hesitação. Do ocidente te, uns começos de industrialização, a larga túnica dos princípios constitucionais, a ossatura da organização administrativa instituída pela Inglaterra – tudo isto proclamado, impulsionado, garantido, tanto quanto o pode ser, por uma ténue camada política, cujos principais elementos penso serem ainda os educados pelos ingleses, os formados pelos ingleses. Do Oriente, ou seja de si própria, como a vasta profundidade à superfície da qual a política e os políticos se agitam, a Índia possui toda uma estrutura económico-social, e uma formação filosófica e religiosa, que puderam dar carácter a uma civilização, mas não conseguiram, através de muitos séculos, estruturar solidamente uma Nação e constituir duradouramente um Estado. De modo que a grande ansiedade vem de que ou Índia refunde e caldeia a sua própria alma ou é de recear seja outra vez um dia vítima de novas divisões e presa de novos conquistadores. Dos movimentos desencontrados que se verificam nos espíritos dirigentes e nas multidões submetidas nascem as graves discrepâncias entre as afirmações e os factos, as leis e os costumes, os propósitos e as realizações – propósitos pacifistas e realizações inamistosas ou bélicas, liberdades teóricas e odiosas restrições práticas, anseios de progresso humanitário e o peso morto de inúmeras divisões.
A maneira de a União Indiana se imunizar dos perigos que continuarão a ameaçá-la na sua estrutura de Estado e na sua vida de nação, afigura-se que não é isolar-se numa política de desconfiança e hostilidade aos países do Ocidente, mas continuar a absorver dele tudo quanto, despido de ambições políticas e de imperialismos ultrapassados, lhe pode facultar em técnica, em instituições jurídicas, em elevação de vida, em princípios de convivência social.
Se a Índia, porém, toma o caminho de segregar-se do mundo em ordem a manter íntegros os princípios em que milenariamente se formou, todo o edifício de democratização ou constitucionalização à europeia soçobrará e de todo se esvairão as esperanças depositadas na floração daquela independência, como na das liberdades apregoadas, designadamente em matéria religiosa. A União Indiana seria bem avisada se deixasse para o momento dessa suprema escolha o prosseguimento de uma política a que, mesmo à parte os agravos ao direito, falta no presente momento lógica e justiça.
Se a algum país Ocidental pode a Índia estender sem receio a mão em território contíguo ao seu próprio território; se alguém pode, sem fazer agravo ou sombra, nem constituir fonte de dissídios ou perigos, representar a luz do Ocidente em terras orientais, esse País é Portugal. As campanhas de ódio de que partem os actos hostis à soberania portuguesa são na União Indiana uma arma de pequena política, de modo algum séria razão de Estado.
E é por isto que, mesmo nestes momentos, me custa abandonar toda a esperança e a confiança que tenho depositado na clarividência dos supremos responsáveis pela direcção daquele país.


Florilégio de pensamentos- Algumas das Mais Belas Páginas de Salazar (54)

A grande ansiedade - Discursos, Vol. V, págs. 221 a 224
Edições Panorama - Lisboa 1961

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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