17 de novembro de 2019   
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A morte do Marechal Carmona criou certamente um vazio difícil de preencher. O sentimento público tão geral e profundo, se foi a exteriorização excepcional de pesar pelo desaparecimento do homem e de elevado apreço pelo Chefe do Estado, traduziu também, a meu ver, séria preocupação pelo futuro da ordem de coisas que sob a sua direcção se criou. Esta preocupação é o facto político de maior relevo a ter presente nestas considerações.
Não é o momento para esboçar o retrato do Presidente nem a mim me caberá fazê-lo. Evoco apenas da minha observação pessoal o que mais importa à compreensão dos factos – o exemplo e a lição. A nota dominante é que o exercício da Presidência não foi senão a projecção das virtudes da vida privada nos negócios do Estado.
O povo tomou-o pela singeleza e afabilidade do trato, a bondade inata, a gentileza do porte, a desafectação total, o desprendimento dos interesses e das situações, a elegância das atitudes morais. Em ninguém se viu mais perfeita essa difícil e rara conciliação da humildade na pessoa e da dignidade no poder. Tão frágil que a brisa ameaçava tombá-lo, tão forte que uma revolução o não podia subverter – nele claramente se via a imensa força dessa coisa delicada e inacessível que nos homens se chama a consciência.
Sem mais experiência que a de breve e desagradável passagem pelo Governo e pelo antigo Parlamento, nem outra preparação que a que lhe advinha dos estudos militares e especialmente da história e da estratégia, tão afim da arte política no seu próprio pensar como no consenso geral, deu as provas máximas de chefia pela prudência, a inteira consagração ao dever, o sentido do possível, a firmeza nas posições fundamentais. Naturalmente sujeito à interpretação vária dos factos e dos homens, refugiava-se na independência do seu próprio juízo e, achado o rumo, seguia-o até ao fim. Segui-lo-ia em quaisquer circunstâncias, as mais adversas, porque o dever para com a Nação não comportava para ele atenuantes no seu absoluto.
E no entanto eram redutíveis a muito pouco os princípios norteadores da sua actuação, afinal recomendáveis urbi et orbi: na administração, a economia e a honestidade; no governo, a supremacia do interesse nacional; na política, a verdade e a justiça acima das conveniências; na sociedade, a benevolência para com todos, a caridade para com o fracos e desprotegidos da sorte. Com esta couraça moral, a força da Poder só podia traduzir-se em acrescida realização do bem comum.


Florilégio de pensamentos- Algumas das Mais Belas Páginas de Salazar (47)

O exemplo e a lição - Discursos, Vol. V, págs. 12 e 14
Edições Panorama - Lisboa 1961

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
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