15 de novembro de 2019   
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A maior dificuldade das sociedades políticas e o problema crucial das Constituições é porém a ordenação e funcionamento dos órgãos de Soberania. Que as nações tenham governo eficiente e estável é a sua maior necessidade e o seu mais inequívoco direito. Ora, seja qual for o sistema de responsabilidades encontrado para o exercício da governação pública, uma coisa é essencial aos governos – a autoridade, no sentido de possibilidade constitucional e efectiva de governar. E não pode crer-se que se chegou a boa solução quando os diferentes poderes funcionam de tal sorte que os governos ou não existem ou não governam: “defendem-se”. Se os grupos partidários a cada momento se consideram candidatos ao Poder com fundamento na porção de soberania do povo que dizem representar, a maior actividade – e vê-se até que o maior interesse público – não se concentra nos problemas da Nação e na descoberta das melhores soluções, mas só na luta política. Por mais propenso que se esteja a dar a esta algum valor como fonte de agitação de ideias e até de preparação de homens de governo, tem de pensar-se que onde ela atinge a acuidade, o azedume, a permanência que temos visto, todo o trabalho útil para a Nação lhe é ingloriamente sacrificado. Tem de distinguir-se, pois, “luta política e governação activa”: os dois termos raramente correrão a par.
Estas questões são a bem dizer questões de sempre, mas nunca como hoje se lhes deu solução menos satisfatória ou mais desproporcionada às necessidades dos tempos. As grandes massas emergem para a consciência política: grandes Estados concorrem à hegemonia do Mundo; as nações arrasadas pela guerra começam a tirar do pouco pão que têm para a boca com que fazer munições para as armas; há tendência para absorver no Estado a direcção de todos os interesses, dos económicos aos espirituais e morais; a liberdade individual afunda-se nessa hipertrofiada função; a defesa do que possa ainda salvar-se dos direitos e dignidade da pessoa humana só pode encontrar-se num Estado em que um Governo seja forte e livre, ele mesmo, dos arranjos partidários, dos movimentos anárquicos da opinião, dos conluios dos interesses particulares. A necessidade incontestável que tem hoje de intervir na vida económica e de trabalhar para o equilíbrio social mais lhe impõem isenção e autoridade, sem as quais não pode ser guia, propulsor e árbitro. Este o grande, o máximo, o angustioso problema.



Florilégio de pensamentos- Algumas das Mais Belas Páginas de Salazar (09)

A maior dificuldade das sociedades políticas – Discursos, Vol. I, págs. XXXVI a XXXIX
Edições Panorama - Lisboa 1961

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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