21 de setembro de 2018   
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(Continuação)

«— Bom! Todos os pormenores já estão resolvidos. Não falta nenhum. Ou antes, há uma coisa que preocupa todos os presentes, que aflora a todos os lábios e de que ninguém, até agora, ousou falar. É Gomes da Costa que levanta a questão:
«— É verdade!... E o general da Divisão, o Peres... Ele ainda está a comandar a 8.ª?
«— Sim senhor, ainda...
E ele sabe do que se passa?
Faz-se um silêncio constrangido na sala. Por fim, um oficial responde:
«— Sim... deve supor... Há todos os motivos para isso... Embora, é verdade, não tenha a certeza de que o Movimento rebenta amanhã.
«O general, porém, não está satisfeito. A testa franzida, mordendo o lábio, todo concentrado agora na ideia daquele comandante de Divisão que dali a poucas horas há-de sentir-se exautorado com a revolta de todas as suas tropas. — Gomes da Costa lentamente, como a falar consigo, vai dizendo, repisando:
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as tropas governamentais para prenderem aqueles que consideravam como conspiradores, procedendo mesmo contra Bispos e fieis ali reunidos, envolvendo a todos na mesma suspeita de conspiração. Seria isto uma enorme desgraça, assim como a vitória foi enorme benefício alcançado por Intercessão da Nossa Mãe do Céu, a mesma que apareceu em Fátima aos inocentes em 1917, a cuja visita, a nossa Pátria bem como todo o Mundo devem tantos benefícios.
Na véspera do Movimento, sábado, os libertadores julgaram-se perdidos por falta de adesão do Exército; mas naquela noite abençoada, de sábado para domingo, nas três Igrejas, Sé, Santa Cruz e Nossa Senhora do Carmo houve adoração em que tomaram parte milhares de fieis que enchiam par completo as igrejas com muita devoção, orando, assistindo às missas e comungando: e logo de manhã veio a noticia consoladora de que todo o Exército havia aderido ao movimento. Lá estava às 5 horas da manhã ouvindo a Santa Missa o Marechal Gomes da Gosta, de saudosa memória do qual todos os portugueses devem recordar-se com profunda gratidão, merecendo-nos, também, gratíssima homenagem os oficiais que se decidiram acompanhá-lo. Desde esse dia bendito, a Igreja Católica em Portugal começou a gozar de liberdade que até então lhe fora negada, procurando-se todos os meios de persegui-la.
É, portanto nosso dever de católicos assistindo à Santa Missa e comungando, agradecemos a Deus Nosso Senhor e à Nossa Mãe Santíssima tão grande benefício; devemos ainda sufragar as almas do Marechal Gomes da Costa e dos oficiais já falecidos que com ele cooperaram, tornando-se instrumento da Divina Providência para se alcançar tão preciosa graça.
Padre Cruz
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«— Oh! diabos!... Isso assim não está certo. Eu sou amigo dele. Fomos companheiros no Colégio Militar, fomos companheiros em França, temos andado mais ou menos juntos pela vida fora — e ele é bom camarada. É bom oficial e uma excelente criatura.
Não queria agora que ele se ofendesse comigo... Era uma maçada!... Sim, porque isto de estar a comandar uma Divisão e aparecer um general de fora, estranho, e sem avisar, à má cara, sublevar e arrancar-nos os regimentos da mão, não é das coisas mais agradáveis... É para dar sorte. Eu não queria fazer uma partida dessas ao Peres, que, coitado, é bom homem!
«No silêncio contrafeito do «comité» as palavras de Gomes da Costa caem e alastram como uma nódoa de azeite. O mutismo continua, denunciando a hesitação em que todos se encontram. Mas o general volta à carga:
«— Vamos lá a ver! Não haverá forma de um dos senhores ir ter com o Peres e por boas maneiras, com um certo tacto, é claro, chegar a convencê-lo de que o Movimento não é feito contra ele, que eu não quero melindrá-lo, que nem é meu intento alijá-lo do comando da Divisão, nem sequer fazê-lo sair do Quartel-General? Eu não sei. Mas parece-me que os srs. devem estar contentes com o Peres. Tem aquele feitio, mas é uma boa alma... E não é pêco. Em França portou-se bem!
«Todos os oficiais protestam então a sua simpatia pelo comandante da 8.ª. Rendem todos os elogios à sua bondade. Ninguém tem razão de queixa. E mesmo a sua conduta de há meses, quando o ministro o chamou a Lisboa, fora a mais correcta, fora de amigo... Mas... (*)
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* Esta referência diz respeito ao seguinte facto: Em determinado momento o Governo deu por tudo quanto em matéria de conspiração se estava passando em Braga. Então o Ministro da Guerra chamou a Lisboa o general Peres, comandante da Divisão para, mais seguramente saber o que se passava.
Quando o general partiu a Caminho da capital, os oficiais foram em massa despedir-se dele, numa expressiva manifestação. No momento da partida do comboio um oficial gritou-lhe:
— Meu general, se fôr preciso vamos lá buscá-lo a Lisboa.
O Governo porém, limitou-se a colher informações e a mandar o general novamente para Braga. De regresso à cidade dos Arcebispos e com o pretexto de lhe ter sido concedida uma honrosa condecoração foi alvo de uma grande e significativa homenagem por parte dos oficiais da Divisão.

(Continua)

Documentos Históricos (14)

A arrancada de 28 de Maio de 1926, por Óscar Paxeco – 1956.
Elementos para a história da sua preparação e eclosão.

O primeiro contacto com Braga — o berço da Revolução (IV de V).

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
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