24 de junho de 2017   
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VIGÍLIA

Pessoalmente aconteceu-me que, não sendo ainda colaborador directo de Salazar, pude contudo viver intensamente, em trincheira de amigos do Presidente do Conselho, aquela noite da conjura e comparar a nossa grande preocupação com a serenidade invulnerável do próprio Presidente. Por esse tempo, algumas vezes nos reuníamos uns tantos deputados, em tertúlia de amigos, em casa de Soares da Fonseca (ali na Calçada da Estrela) a dois passos da residência oficial de S. Bento.
O mais relevante desses encontros foi durante toda a noite de 12 para 13 de Abril de 1961.
Soares da Fonseca fora intermediário pessoal entre o Chefe do Estado e o Presidente do Conselho no ajuste dos termos de execução da estratégia que, em longa reunião na casa de Américo Thomaz (já esclarecido por chefes militares leais) entre os dois Presidentes se tinha definido.
Estava, pois, Soares da Fonseca ao corrente de tudo e, desde o princípio do serão até muito tarde, continuara a receber informações da evolução da tentativa de golpe.
Na curiosa inverdade de certos escritos, já vi afirmado que Salazar passara essa noite abandonado de todos sem que, sequer, o seu telefone tivesse tocado.
Porém, só dali da Calçada da Estrela, várias vezes lhe telefonaram Mário de Figueiredo e o dono da casa. Recordo que o último telefonema do Doutor Mário, já noite alta, fora precedido, perante nós, deste raciocínio ao seu estilo: «Pois se estamos seguros de que os sujeitos vão cometer o erro de não tentarem nada antes da manhã — e se todas as providências estão definidas — a única coisa inteligente, a fazer, é dizer ao Presidente que se vá deitar.» Terá sido a dizer-lhe isto (com a frontalidade amiga que só Mário de Figueiredo se permitia) o último telefonema que Salazar escutou naquela noite.
Depois, já alta madrugada, quando nos despedíamos na Calçada da Estrela, o meu querido amigo Rogério Vargas Moniz advertiu: «Amanhã todos muito cedo na Assembleia, não vá algum dos nossos colegas tentar qualquer disparate.»

UMA PARTIDA DE XADREZ

Poucas horas depois amanhecia o dia 13 de Abril. Ali perto, os secretários do Presidente do Conselho chegavam ao Gabinete, para se iniciar mais um dia de trabalho na serenidade de sempre.
Do testemunho dos próprios, sei da «tranquilidade com que Salazar acolheu os secretários, despreocupado e satisfeito» e lhes confiou o trabalho que num horário com rigidez de minutos, lhes cabia executar no esquema da espantosa partida de xadrez que, naquela manhã, ia jogar-se.
Sei-o do testemunho do meu saudoso amigo Sollari Allegro (que antes tivera contacto importante com Kaúlza de Arriaga) e que, não sendo já secretário do Presidente, ali compareceu nessa manhã (como, aliás, fazia com frequência e, sempre, em momentos graves); de outro amigo, o então jovem secretário Dr. Alfredo Barbieri Cardoso (já hoje jubilado Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça); do depoimento publicado pelo secretário Dr. Almeida Langhans.
No depoimento a que aludo, do Dr. Almeida Langhans, diz-se que Salazar escrevera, nesse dia 13 de Abril, mais algumas cartas, uma das quais dirigida ao Major Jorge Botelho Moniz, que fora cadete de Sidónio; combatente valentíssimo da causa nacional, nos tempos em que se jogara e firmara o 28 de Maio; arauto, nas ondas do Rádio Clube Português, do apoio da parte sã da Nação Portuguesa à marcha das tropas de Franco contra a tentativa de domínio comunista da Península. Conheci Jorge Botelho Moniz na Assembleia Nacional e pude ser seu amigo. Um dia mostrou-me cópia da carta que por aqueles idos de Abril, ele próprio logo escrevera a Salazar.
Hoje pesa-me nunca lhe ter pedido para a revelar. E não o farei. Algum leitor que acaso eu tenha fica privado de conhecer os termos de um documento que é exemplo altíssimo de nobreza de carácter, coragem e lealdade. Pois, com a frieza dos mestres, Salazar previra o percurso completo de todas as suas pedras e imaginara a movimentação das pedras do adversário, já seriamente comprometida por vários xeques: o seguro critério do Chefe do Estado, que lhes inviabilizara a primeira parte do plano; a grande firmeza de Kaúlza de Arriaga que, em essencial antecipação, colocara de prevenção a Força Aérea; a garantia da disciplina das Forças de Segurança, assumida pelo Ministro do Interior general Arnaldo Schultz; a prontidão com que o Ministro da Marinha, almirante Quintanilha de Mendonça Dias, logo que regressado do estrangeiro, determinara com o Chefe do Estado Maior da Armada, almirante Sousa Uva, a prevenção rigorosa da Marinha de Guerra e proibira todos os seus oficiais de participarem na reunião convocada pelo Ministro da Defesa; a inteligente e leal actuação do General Luís de Pina, Chefe do Estado Maior do Exército. Estavam no tabuleiro as cartas de demissão que escrevera aos Ministros da Defesa e do Exército (e a substituição deste envolvia, constitucionalmente, o termo das funções do Subsecretário da pasta). Estava anotada a hora exacta da entrega das mesmas. Estava o esquema dos termos e dos momentos certos em que a remodelação seria anunciada ao País. Estava a carta a comunicar ao general Beleza Ferraz a sua substituição no cargo de Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas.
Salazar convidara já (mediante diligência pessoal do Doutor Costa Leite) para substituir aquele, um militar de grande prestígio e confiança, o General Gomes de Araújo — e era seguro que este aproveitaria, eficazmente, o tempo que lhe era dado.
Só depois de jogada toda a movimentação daquele esquema, Salazar faria, pela rádio e pela televisão, a sua comunicação ao País.
Era o princípio da tarde de 13 de Abril e, cronometrado em impassibilidade de mestre, o momento exacto do xeque-mate.
Salazar fechava o ciclo de hesitações que, algures, se tivessem esboçado perante os ataques desferidos, em Angola, contra a integridade de Portugal.
«Se é precisa uma explicação para o facto de assumir a pasta da Defesa Nacional mesmo antes da remodelação do Governo que se verificará a seguir, a explicação pode concretizar-se numa palavra e essa é Angola.
Pareceu que a concentração de poderes da Presidência do Conselho e da Defesa Nacional bem como a alteração de alguns altos postos noutros sectores das forças armadas facilitaria e abreviaria as providências necessárias para a defesa eficaz da Província e a garantia da vida, do trabalho e do sossego das populações.» (Discursos, vol. VI, p. 123).

SALAZAR - testemunhos... (22)

SALAZAR – Memórias para um perfil, de José Paulo Rodrigues (subsecretário de Estado da Presidência do Conselho de 1962 a 1968), pág. 148 a 150.

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
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