25 de março de 2017   
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(Continuação)

seus primeiros discursos, aquele que fez em 28 de Maio de 1930, na Sala do Risco, aos oficiais do Exército e da Armada reunidos com o Governo para comemorar o quarto aniversário do Movimento de Braga.
Eis o trecho, para o qual peço atenção reflectida:
— «Quando se tem em mente a verdadeira, a alta acepção da palavra política, julgo impossível fazer-se, sem esta, administração que se imponha e valha. Fora do pequeno expediente, execução a bem dizer material de uma regra, pode afirmar-se que a verdadeira administração tem sempre atrás de si um conceito de Estado de finalidade social, de poder público e suas limitações, de justiça, de riqueza e das funções desta nas sociedades humanas, quer dizer, uma doutrina económico-política, se quereis mesmo uma filosofia. Ai dos governos, melhor ai dos povos cujos governos não podem definir os princípios superiores a que obedece a administração pública que fazem!».
Aqui se proclama expressamente — não está implícita, está explícita — a necessidade inelutável, para o homem de Estado, de se guiar por uma constelação de ideias-mestras, de normas fundamentais, de primeiros princípios. «Se quereis mesmo, uma filosofia» — assinala o Autor, porventura com algum receio da palavra, ciente do errado descrédito que os filósofos disfrutam entre as turbas. Nem por isso — verídico, objectivo, leal — recua perante o dever de pronunciá-lo. «Se quereis mesmo, uma filosofia» . . . Desabafo elucidativo. Preciosa luz a incidir sobre uma figura e uma obra!
Talvez os antigos tivessem alguma razão ao condenar os que se embrenham nas questões abstractas e por elas esquecem, ou descuidam, as miúdas, mas urgentes, preocupações da vida quotidiana. Talvez. Salazar ensina-nos, no entanto, com o texto que citei há pouco e também — e sobretudo — com o êxito prático, tangível, inegável de uma longa acção política orientada dentro do critério que adoptou, não haver senão vantagem flagrante na filosofia como reguladora e mentora da vida. Ensina-nos ser, pelo menos, lícito e justo dar esta outra forma à célebre máxima latina:
— Filosofar, primeiro; só depois — governar!
E é decerto por isso que ler ou ouvir em tempos como os de hoje o Chefe do Governo Português não é só raro prazer de espírito; chega a ser alto conforto moral. Neste período de grandes ameaças, sobressaltos e decisões, muitos se mostram incapazes de suportar o peso da tormenta: e umas vezes perdem o equilíbrio, outras vezes perdem o pudor. A todo o instante deparamos (dentro ou fora das nossas fronteiras) novos sintomas desse estado de perturbada inconsequência que marca na História os lances agudos de crise. E no meio de tanta confusão, de tanta ignorância, de tanto charlatanismo, de tanta tortuosidade, de tanta impostura — que enchem a Terra de extremo a extremo a extremo — soam as honestas e lúcidas palavras de Salazar. Exprimem uma consciência isenta, uma visão serena, um bom senso inalterável.
Quando nos tentávamos a desesperar ante o dilúvio de quimeras ou de inépcias — estamos, outra vez, em terra firme, com a estrada alumiada por aquela claridade da recta razão que Deus nos deu para nos guiarmos e de que tão poucos fazem uso…
A crise está no homem — clamava, aliás com pleno acerto, no título de um livro de sondagens à psicologia dos modernos, um dos bons ensaístas franceses da geração dos trinta anos: Thierry Maulnier. Significa isto ser no íntimo de cada homem que se trava hoje a maior luta — da qual as lutas exteriores são, no fundo, meros reflexos e consequências. A crise está no homem — na sua alma cheia de temores, de pesadelos e de monstros; na sua inteligência desligada do real, perdida em labirintos sem saída, ao mesmo tempo ansiosa e impotente, ora entregue às ambições desmedidas de um idealismo absoluto, ora despenhada nos cínicos desesperos de um materialismo totalitário; na sua vontade, que cede com frequência aos apelos de uma atmosfera de agitações, tentações e ameaças, fraqueja e oscila, se ergue em assomos de iniciativa e logo estaca ou se transvia e, em última análise, não tem a persistência necessária para escolher um caminho e seguir adiante.
E é este homem de agora, incerto, desarticulado, contraditório, que surge em toda a parte; que surge, também, evidentemente, nos lugares de responsabilidade e nos elencos governativos. A crise actual, nos domínios da política e da diplomacia, nas relações entre povos e entre continentes, deriva de se encontrar muitas vezes, à cabeça das nações, esse homem sem firmeza e sem bússola, esse homem que em nada acredita porque não acredita, primeiro, em si próprio; que, por não ter definido o seu esquema essencial de princípios e de regras, tropeça nos sucessivos malogros não de um empirismo organizador, como queria Maurras, mas de um empirismo desorganizador; enfim, que foi investido da função de dirigir os outros, mas começa por não estar apto a dirigir-se e avança, à toa, ao sabor dos ventos de cada hora, sem saber para quê nem para onde. Repare-se bem no espectáculo que temos na nossa frente e ver-se-á que a profundidade, a acuidade da doença mundial é, em resumo, a carência dos chefes que desconhecem o rumo, dos governantes que, antes de o ser, nunca filosofaram, nunca adquiriram noções consistentes

(Continua)

SALAZAR - testemunhos... (15)

Discurso proferido por João Ameal, escritor, da Academia Portuguesa da História, por altura do XX aniversário da entrada do Prof. Salazar no governo. Abril 1948.

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
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