23 de abril de 2017   
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SERVIR

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«Só raramente encontrei — e nunca, ainda, entre homens poderosos ou célebres — um Homem a tal ponto liberto de si mesmo, como servidor da causa pública».
(Gustave Thibon, France Catholique, Paris).

Quando, no centenário do nascimento de Salazar, em depoimento que se contém no livro da Bertrand Salazar visto pelos seus próximos, tive de enunciar alguns traços do seu perfil que mais me impressionaram durante o tempo em que me foi dado colaborar com ele, escrevi: «A firmeza dos princípios, a rectidão de consciência e o lúcido critério eram o cerne da personalidade de Salazar».
Creio que, sobre isto, se erguia tudo o mais: uma inteligência vivíssima; uma vontade férrea; uma capacidade inata de tratar, com fria decisão os interesses do Estado sem lhe secar, nas coisas pessoais, uma grande sensibilidade; a coragem das atitudes; o sentido espartano da vida pública e o desapego de bens e interesses materiais; a entrega sem reservas à luz da sua profunda formação religiosa, à missão de servir Portugal «como um dever de consciência, friamente, serenamente cumprido».
Colhido no dia-a-dia de seis anos de trabalho, gerado em atitudes que efectivamente pude testemunhar, este é o perfil que recordo de Salazar. Os princípios e a sua firmeza tinham-se gerado na Família, na Escola, no Seminário de Viseu («entre aqueles bons padres aos quais devo o melhor da minha formação moral e da minha disciplina intelectual»¹; tinham-se exercitado na Universidade de Coimbra, como escolar e mestre; tinha deles dado testemunho nos trabalhos apostólicos do CADC, nos artigos do Imparcial e das Novidades; inspiram a mensagem inequívoca dos seus «Discursos», sempre em inquebrantável fidelidade.
Espelham a firmeza granítica das pedreiras da terra beirã (firmeza que ele interiorizara) todos os actos da sua vida. Testemunho selado, com a mesma austera força, na única disposição «post-mortem» que se lhe conhece: ser sepultado no Vimieiro ao lado da campa de sua Mãe, sob uma laje de granito em que, além da Cruz do Redentor, se gravassem apenas as letras A.O.S.²
Na verdadeira humildade daquelas terras nascera e vivera. E nelas jaz como pobre.
A rectidão de consciência, presente nas grandes horas e nos pequenos momentos, brotava naturalmente da sua forte vida interior. Recordando a grande Santa Teresa de Ávila, afirmara ele um dia: «Uma intensa vida interior é necessária ao homem de acção empenhado numa tarefa de envergadura. É na vida interior que ele encontra a origem primária da força e da perseverança... Se é possível vida interior sem acção externa, sempre no plano puramente humano, não se afigura possível acção — entenda-se acção no mais largo sentido — sem forte vida interior».
«Tenue modesta, aristocracia de nervos, um quase nada irritável às vezes, a ideia clara movendo-se, lá vai o Oliveira Salazar para casa».
As palavras à margem são de um eco do Imparcial, jornal dos universitários católicos de Coimbra, e têm sido atribuídas ao estudante Manuel Gonçalves Cerejeira.
A «ideia clara movendo-se» define o dinamismo da vida interior e da formação cultural, em todo o percurso da sua peregrinação na terra.
Da piedade e estudo no Seminário de Viseu ao exemplo e doutrinação em Coimbra, dos bancos da escola à cátedra de mestre. Na linha de rumo das responsabilidades e comando político: da segurança serena da sua fortaleza de ânimo à fidelidade aos princípios e coragem de prossegui-los.
A ideia clara movendo-se o conduziu na obra das Finanças que, não sendo em si mesma um fim, era meio indispensável de conseguir, para o país, tudo o mais que pudesse dar-lhe. A ideia clara, que ele enunciara um dia num velho templo profanado de Coimbra, é que iria conduzi-lo a assentar bases de regeneração para a política nacional e a prossegui-las imperturbável. A ideia clara quase se materializava à nossa vista, conduzindo o pensamento expresso nas poucas palavras das suas orientações em longas manhãs de trabalho, no silêncio envolvente do gabinete.
A ideia clara da ortodoxia dos princípios se desdobrava nos rumos todos do seu trabalho: na definição da política externa que servisse o interesse de Portugal; na condução da política interna em todos os seus vectores (da economia à ordem pública e à paz social) no propósito unificador de servir o bem comum.
A ideia clara de como lidar com os homens, politicamente seus seguidores ou adversários distantes e de conhecer sempre, com meridiana clareza, os limites políticos da sua própria acção.
(continua)

¹Salazar: A minha resposta.
²Recomendação confiada ao seu amigo Dr. João de Lacerda, do Caramulo.


SALAZAR - testemunhos... (01)

SERVIR – Capítulo II do livro do Dr. José Paulo Rodrigues (subsecretário de Estado da Presidência do Conselho de 1962 a 1968), "Salazar – Memórias para um Perfil" – 2ª edição, pág. 17 a 19

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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