25 de março de 2017   
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ANTES DO 28 DE MAIO

Agradeço ao Sr. Presidente da República as suas animadoras palavras e aproveito a boa disposição do Chefe do Estado para conversar com ele sobre o momento nacional e sobre os antecedentes da sua acção política:
— O Sr. Presidente pensou, alguma vez, no papel que viria a desempenhar na vida portuguesa? Antes do 28 de Maio, a política interessava-o?
O Sr. general Carmona responde com simplicidade:
— Nunca... Vai ficar certamente surpreendido, mas a primeira vez que votei foi por ocasião do plebiscito...
— ?!!
— É verdade.., O meu horror ao chamado sufrágio universal vem de muito novo. A minha casa, em Chaves, era mesmo ao pé da igreja onde se realizavam as eleições. Assisti, muitas vezes, à clássica cerimónia do carneiro com batatas e a todas as falcatruas inerentes ao voto simbólico das democracias que pretende traduzir a vontade popular e que, na minha observação, da minha janela, era apenas vontade de comer e beber... Quando, depois do triunfo já combinado e previsto, eu via passar, pelas ruas da cidade, aos berros, os caciques da terra, defensores de interesses inconfessáveis, capitaneando rebanhos de criaturas ignaras, cambaleantes e ébrias, sentia urna náusea profunda por essa falsa e envenenada vontade popular e jurava a mim próprio que só votaria quando a mentalidade do povo, principalmente a dos seus dirigentes, se transformasse. Posso orgulhar-me de ter cumprido esse juramento, apesar dos pedidos constantes que me faziam para votar neste ou naquele. Uma vez — lembro-me bem — o comandante dum regimento em que fazia serviço, a quem devia grande amizade, pediu-me para votar... Não tive coragem de lhe dizer que não... Ele, porém, compreendeu o meu desgosto diante do seu pedido e acabou por me dizer que fizesse eu o que entendesse. No dia das eleições, todos os meus camaradas, a pedido do seu comandante,
foram votar em determinada lista. Um único oficial ficou no quartel: eu... Sem vocação, ou desejo, de desenvolver, nesse momento, uma acção política, sem confiança em qualquer dos homens que se apresentavam ao sufrágio, eu mentiria à minha consciência votando em quem não conhecia... ou conhecia demais.
— Mas o Sr. Presidente — desculpe-me a ousadia da recordação — chegou a ser ministro dum governo político.
— É verdade — confirma o Sr. general Carmona com certa melancolia. Circunstâncias que não vale a pena relembrar, mas que podem assemelhar-se àquelas que me levaram ao lugar onde estou, obrigaram-me, depois do 19 de Outubro, a aceitar o cargo de ministro da Guerra no Governo do Sr. Dr. Ginestal Machado. O dever também nos engana às vezes... Passagem breve pelo Terreiro do Paço, que não foi inútil. Um pretexto para me sentar no banco azul, em S. Bento, a observar o espectáculo desolador, confrangedor, do nosso Parlamento, espectáculo que quási fez de mim um revolucionário...
Aproveito o desabafo para chegar ao 28 de Maio:
— Foi esse princípio de revolta que o levou, alguns anos depois, a colaborar na revolução que fechou precisamente esse Parlamento que tanto o desgostou?
O Sr. general Carmona esclarece-me:
— Eu não cheguei propriamente a colaborar no movimento de 28 de Maio. Depois do célebre julgamento dos implicados no 18 de Abril, os chefes dessa revolução precursora começaram naturalmente a aproximar-se de mim. Reuníamo-nos, de quando em quando, numa leitaria da rua do Amparo que fazia esquina para o Rossio e que já não existe. Um dia, o comandante Cabeçadas perguntou-me, efectivamente, se eu desejaria entrar num movimento que se dispunha a libertar-nos da tirania dos partidos, ou antes, dum partido. Eu seguia, no dia seguinte, para o sul, num famoso e inexistente serviço de inspecção de que me tinham encarregado talvez para não me deixarem quieto, durante muito tempo, no mesmo lugar... Disse que nenhuma resposta lhe poderia dar enquanto não conhecesse as bases do movimento. Para ser informado dessas bases, deixei o meu ajudante em Lisboa com ordem de mas enviar mal lhe fossem confiadas. Entretanto, o movimento rebentou, com o meu absoluto desconhecimento. Tendo-me sido feito o pedido para assumir revolucionariamente o comando da minha antiga divisão, em Évora, ainda pude contribuir, com algumas ordens, para a completa vitória do movimento. Conhece o que se passou depois... Ministro dos Negócios Estrangeiros com o general Gomes da Costa, valoroso chefe do movimento, fizeram-me ver depois que o meu lugar, se queria salvar a situação, e talvez a Pátria, era aqui... Não hesitei, não podia hesitar...

Documentos Políticos (04)

António Ferro no decorrer da entrevista, com o Presidente Carmona, 1934. Edição SPN Lisboa, pág. 10-13

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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