29 de maio de 2017   
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A EXISTÊNCIA DE TRÊS ÁFRICAS DISTINTAS

«Penso que poderemos e deveremos dizer que não há uma África há várias Áfricas. Temos a África árabe, ao norte, com os seus problemas específicos, suas tradições próprias, sua cultura particular: e não se lhe descobre nada de fundamental que seja comum às demais Áfricas. Temos depois a África ao Sul do Saára: os problemas políticos, sociológicos e económicos que enfrenta tem uma tipicidade que os separa por completo dos que deparamos noutras áreas. Finalmente, temos a África multirracial e pluricultural, e poderemos dizer com algum orgulho que nela se inclui com as suas características únicas, a África portuguesa. Esta teoria das três Áfricas não traduz uma simples especulação, nem constitui uma construção teórica para fins políticos. Ao contrário: funda-se numa realidade que progressivamente se acentua, resulta de uma experiência que cada dia se torna mais clara. Por paradoxal que se afigure eram os laços políticos forjados pela Europa no Século XIX que davam aparente unidade à África; e por isso, quebrados ou transformados aqueles, a realidade retomou os seus direitos, e impõe-se com força crescente. Significa isto que é artificial procurar impor a toda a África as mesmas soluções políticas e económicas, encarar a sua evolução sociológica pela mesma bitola, defender uma unidade de actuação que não corresponde a uma unidade de valores ou de interesses. Uma coisa é a cooperação, que é sempre útil e deve ser estabelecida em bases, e outra é a uniformização, que abafa e mata valores regionais cuja perda constitui prejuízo para a própria África. Se aqueles que têm alguma responsabilidade na política africana, ou que têm alguns meios de influenciar, quisessem ver e aceitar a realidade das três Áfricas e agir em consequência, estamos certos de que muitos benefícios daí resultariam para o continente, e que muito facilitada seria a solução de alguns problemas básicos. Por nossa parte, temos dito e repetido, e continuamos a dizê-lo e a repeti-lo, que estamos prontos à cooperação dentro dos princípios de igualdade e respeito mútuo. E também continuamos a dizer que de nós nada tem a África a recear, e só por extrema demagogia ou em obediência a interesses alheios se poderá pensar e afirmar o contrário.»

Política Externa Portuguesa (05)

(Conferência de Imprensa dada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros português Dr. Franco Nogueira, em 2 de Junho de 1964, em Lisboa)

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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