22 de julho de 2017   
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Da última conflagração, esmagados o Japão e a Alemanha, surgiram para a hegemonia mundial dois grandes poderes: os Estados Unidos e a Rússia. A Inglaterra, que pôde heroicamente salvar-se e à comunidade das nações britânicas, vê alterada a sua posição relativa, de modo que, embora fazendo jogo independente na defesa dos seus interesses próprios, se tem aproximado mais e mais da concepção dualista do mundo anglo-saxónico a cujo entendimento e acção concorde as duas potências que o representam vêm sacrificando a inteira liberdade de se determinar.
Os Estados Unidos sentem, como não sentiram em 1919, a responsabilidade da sua força e da sua vitória, e dá-se com eles o estranho caso de ascenderem ao primeiro plano da política mundial pelo seu próprio valor, sem dúvida, mas também impelidos, solicitados pela generalidade das nações. É quase uma hegemonia plebiscitada, tal a consciência da insegurança e da possibilidade de mergulhar numa catástrofe sem a ajuda da grande nação americana.
Sem se esquecerem os valiosos auxílios e apoios que recebeu dos seus aliados, a Rússia revelou extraordinárias qualidades de resistência, de valor ofensivo e de organização, quer económica quer militar. Sofreu e bateu-se valorosamente e pôde endossar, tanto às suas armas como às virtualidades do seu regime político, parte importante do prestígio da vitória.
Não pode duvidar-se de que o seu poder é forte, dotado de uma capacidade de deliberação e de execução com que outros não podem competir e liberto do peso de uma opinião pública, inexistente ou adrede preparada para o apoio da política a seguir. A Rússia é, além disso, a fonte viva duma ideologia ou mística que se pretende universal, portadora de uma mensagem de libertação de todos os povos e, sobretudo, das massas supostamente escravizadas e contra a qual o liberalismo não tem podido lutar com êxito, obrigado como está a reconhecer ao comunismo direitos de cidade, em igualdade de condições com outros programas de reforma política ou social. Por virtude da expansão da sua ideologia, a Rússia não tem só adeptos por toda a parte; ela encontra-se indirectamente na raiz da inspiração e da actividade governativa em muitos países.
A estratégia da última fase da guerra, por exigência das operações ou da política, não só pôs na mão da Rússia a direcção efectiva dos negócios de algumas nações como lhe entregou as posições-chave de onde pode partir-se em todas as direcções à conquista do continente. E, quando se compara a vastidão do seu território e recursos de população e riqueza com o fio de pequenos países seus vizinhos na Europa, não se pode deixar de sorrir ante a insistência com que tem feito aceitar as imposições do seu «direito de defesa».
Eu quero concluir o seguinte: a Rússia tem hoje todas as possibilidades de dominar inteiramente a Europa e pode fazê-lo sem que a maior parte dela possa sequer lutar. É isto pelo menos o que está na lógica do seu poderio incontrolável e da sua doutrina.
Falo em perigo potencial, e não efectivo, visto os dirigentes soviéticos não estarem obrigados a qualquer lógica senão muito realisticamente à dos seus interesses e a posição puramente defensiva de todas as outras nações lhes permitir escolher oportunidades e meios de acção.
A vida tem surpresas de fazer pensar: quase toda a Europa se bateu e se arruinou por se opor à «nova ordem» de concepção germânica; mas é sobre as suas ruínas ainda fumegantes que se vê alastrar a «nova ordem comunista». Ora esta é, por definição, exclusiva e inconciliável com o conceito de civilização de que se orgulham as outras hegemonias. A Europa tem de escolher.


Relações Internacionais: O Comunismo, Aliança Inglesa, Amizade Peninsular, Pacto do Atlântico (17)

(«Relevância do factor político e a solução portuguesa» — Discurso na inauguração da I Conferência da União Nacional, em 9 de Novembro — «Discursos», Vol. IV, pág. 251; e 252-254) - 1946

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