27 de maio de 2017   
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O primeiro ponto em que deve assentar-se é o carácter da luta civil espanhola e o alcance ou significado político da vitória de qualquer dos contendores. Uma coisa parece evidente: mesmo que o levantamento da força armada não representasse no princípio o que hoje vemos ser, ele viria a representar pela força das circunstâncias não a luta do Exército contra a democracia parlamentar mas contra o comunismo em Espanha.
Desde que a revolta se deu na máxima parte da força armada e Madrid enveredou pelo caminho de organizar a sua defesa com milícias, teoricamente com todos os partidos da Frente Popular, praticamente, pela ascendência dos mais violentos, com os filiados nas organizações comunistas e anarquistas, ficou fixado o carácter da luta. E então, independentemente das preferências ou simpatias de cada um, ou os acontecimentos do País vizinho haviam de desmentir a razão e a experiência humana, ou no dia do aniquilamento do Exército não haveria senão um triunfador e uma força política — as milícias armadas, e ninguém poderia infelizmente salvar na derrocada nem a Constituição nem o parlamento nem a democracia espanhola. Os que prefiram enganar-se a si próprios podem no entanto continuar a fantasiar outras hipóteses.
Estes os factos — e não nos importa agora qualquer responsabilidade dos homens — estes os factos que, devido ao carácter do comunismo, deram à guerra civil de Espanha a natureza de luta internacional, embora desenrolada, como já escrevi, em território nacional. Não obstante isso, sem o perder de vista e sem perder de vista os perigos do contágio e da extensão do predomínio comunista, o estado actual da Europa claramente indicava dever tentar-se tudo para não deixar que a luta de Espanha se repercutisse no quadro dos interesses e posições internacionais.
Quando forem levadas a bom termo, como esperamos, estas incruentas batalhas diplomáticas, todos os países de ordem poderão ver com serenidade que no fundo só em duas coisas interessa deter a atenção.
A primeira é: o comunismo está a travar na Península uma formidável batalha de cujo êxito dependerá em grande parte a sorte da Europa, razão por que por ela se interessam e nela tentarão intervir, na medida permitida em cada Estado, todas as ideologias afins.
A segunda é: mais valioso para o comunismo ibérico do que um carregamento de armas e munições seria a transformação política operada em Portugal que tornasse
vulnerável a retaguarda de todo o exército espanhol. E foge-me a pena para uma pergunta indiscreta: também nesse caso interessaria tanto como agora que aderíssemos ao compromisso de não-intervenção?
A este ponto fundamental — Portugal país de ordem social e de autoridade — está ligada substancialmente a campanha dos jornais e a intriga do presente momento por meio da qual, ao mesmo tempo e em extremos opostos da Europa, se afirma a nosso respeito a venda de colónias, a cedência de bases marítimas, a mudança do eixo da política tradicional, conjuntamente com dinheiro suspeito, conspirações activas,
organizações revolucionárias, entendimentos e compromissos entre gente que mal podia supor-se estar tão unida e ser tão dada. Só quem tenha presentes os dois pontos acima referidos pode entender um importante sector da política europeia do momento e orientar adentro das fronteiras a acção que competir.
Ora os que têm seguido sem paixão o drama peninsular, os que não esqueceram a história de há décadas, de há anos e de há dias, os que se lembram das ambições alguma vez manifestadas do plano ibérico do comunismo, da clareza, aliás de agradecer, com que tem sido muitas vezes defendido na imprensa o direito de intervenção em Portugal,
fazem-nos a justiça de crer que não são românticos os receios nem levantamos por capricho dificuldades a ninguém; simplesmente não desistimos de que seja respeitada a nossa tranquilidade nem podemos transigir no necessário à defesa da vida e liberdade do nosso povo.
E a Inglaterra? Embora com razões para sorrir de tamanha ansiedade, sossegarei
os intranquilos dizendo-lhes simplesmente:
1º A Inglaterra compreende a delicadeza da nossa posição e não há-de estranhar que o nosso modo de ver sobre os problemas peninsulares seja mais rigoroso que o seu próprio;
2º E porque tem da aliança com Portugal, quanto ao objecto e modo de funcionamento, uma noção diferente da dos que formulam tão aflitivas dúvidas, respeita as divergências, acompanha as discussões e certamente nos dará sem contrariedade razão naquilo em que lograrmos convencê-la.
E não provém daqui senão melhor compreensão mútua e melhor trabalho de conjunto a bem dos interesses comuns.
Espero assim ter conservado para a Inglaterra a fidelidade dos seus antigos amigos e haver-lhe ainda granjeado a daqueles cuja dedicação me era até há pouco absolutamente desconhecida.



Relações Internacionais: O Comunismo, Aliança Inglesa, Amizade Peninsular, Pacto do Atlântico (04)

(«Os acontecimentos de Espanha e a não-intervenção» — Nota oficiosa publicada em 23 de Setembro — «Discursos», Vol. II, págs. 193-195, 203-204, 204-205 e 205-206) - 1936

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