22 de outubro de 2017   
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Oh! a deliciosa situação de neutro em que não há atitude acabada de compreender, nem correcção impecável, nem serviço reconhecido, nem imparcialidade bastante! Toda a simpatia é partido, toda a crítica é ofensa, toda a restrição desinteresse, toda a recusa hostilidade. Na preocupação absorvente que domina os beligerantes e naturalmente reduz o mundo às perspectivas da sua vitória, o interesse do neutro por pouco não existe, o seu direito é apenas tolerância e, para alguns exaltados, tão incompreensível e despida de valor a sua existência como de párias entre magníficas gentes da guerra. Não é cómoda a situação do neutro... Nem cómoda nem económica.
Por conveniência ou acidente quase não há hoje águas territoriais invioladas, céu que não haja sido cortado em abusivos voos, território imune de acções guerreiras. Nós pousamos em mares e continentes em que se batalha, encontramo-nos na confluência de grandes estradas do mundo: impõe-se-nos a guarda custosa de certo número de pontos nevrálgicos. Não nos poupamos a esforços, sacrifícios e despesas e fazemo-lo sem cansaço nem arrependimento, com a ambição única de que os nossos soldados cumpram bem o seu dever de sentinelas vigilantes. Outros se vêem obrigados a trabalhar e despender mais do que nós; como nós, pagam também o alto preço da sua neutralidade. — Não é barata.
Muito menos se pode supor egoísta. Quando se pensa no que Portugal ou a Suíça — para não falar de outros com igual razão — no que Portugal ou a Suíça têm feito para salvar do naufrágio os restos da solidariedade humana num mundo praticamente todo em guerra; quando se considera o valor dos pequenos oásis onde a vida não é ódio ou desespero e a simpatia dos corações não distingue povos ou raças mas apenas o sofrimento e a necessidade; quando se reflecte na porção de ar, de luz, de esperança que as poucas janelas abertas sobre o grande oceano representam para a Europa sequestrada de grande parte da sua vida e da sua glória - deveria louvar-se a Providência. Porque Ela faz sobreviver nos homens ao rancor das lutas o sentimento do bem e permite manter entre as nações em guerra a consciência da paz.
Cómoda ou incómoda, egoísta ou não, a neutralidade não é vantajosa senão enquanto serve o interesse nacional e o maior deles na concorrência de vários. Esta ideia envolve outra - a de a neutralidade estar sujeita a contínua revisão e por isso não poder alguma vez dizer-se que é definitiva. Ela depende mais dos factos que dos propósitos, mais de outros que a desrespeitem do que do próprio que pretenda mantê-la. Nem isto quer dizer que não haja uma política de neutralidade (creio termo-lo demonstrado); mas significa que, estando o mundo em guerra, mal pode alguém afirmar que em quaisquer circunstâncias se lhe conservará estranho. Numa palavra: o desejo de neutralidade não pode ser superior ao interesse da Nação. E sendo tão sinceramente neutrais, como somos, julgo prudente que o nosso espírito não amoleça na ideia de se não bater.




O Problema Político Externo - Criação de uma Política Externa Portuguesa (16)

(«Defesa económica — Defesa moral — Defesa política» — Ao microfone da Emissora Nacional, em 25 de Junho — «Discursos», Vol. III, págs. 340-342) – 1942

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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