22 de outubro de 2017   
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A verdade, porém, é que politicamente tudo o que parece é, quer dizer, as mentiras, as ficções, os receios, mesmo injustificados, criam estados de espírito que são realidades políticas: sobre elas, com elas e contra elas se tem de governar.
E uma primeira observação se me afigura de utilidade fazer: não há, em geral, coincidência entre o valor da actividade ou as realizações governativas e a atmosfera política. O inteligente esforço desenvolvido por D. Carlos e coroado de êxito, nos últimos anos do seu reinado, na política internacional não logrou desanuviar o ambiente e não retardou de uma hora o seu bárbaro assassínio. O esforço feito em 1907 pelo saneamento das finanças — sempre a máxima questão nacional — e continuado com as reformas de 1908, já no reinado de D. Manuel, não teve efeito algum sobre a consciência pública, não diminuiu a intensidade das lutas partidárias e muito menos pôde salvar a monarquia. É certo que muitos outros problemas, à espera duma solução que demasiado tardava, se encontravam na base dos descontentamentos; mas continua verdadeiro que actos da maior transcendência se podem inteiramente perder em ambientes contrários de paixão, fundada ou infundadamente criados.

Deve, em primeiro lugar, atender-se a que a execução integral dos princípios da Revolução Nacional suscita por si mesma grandes dificuldades: como é profunda, fere o egoísmo dos interesses criados; como tem de ser morosa, coíbe os ímpetos dos apressados e dos improvisadores; como é ampla e se estende desde os domínios do pensamento à produção e distribuição das riquezas, a todos atinge e a todos terá de descontentar.
A Revolução tem sido um esforço realizado no sentido do «alto» e do «grande», e só é preciso ser português para ter consciência do sentido heróico do nosso ressurgimento. O ambiente estrito, mesquinho, em que se debatiam as nossas mais graves e complexas questões nacionais teve de ser varrido e fortemente arejado; a discussão dos problemas, elevados sistematicamente e por exigência dos princípios ao plano nacional, tornou-se logo incompatível com o pequeno interesse, o compadrio político, a habitual mediocridade.
Por outro lado, vencer o atraso de dezenas de anos, reconstituir a sida nacional com a modéstia exigida pelos recursos mas com a dignidade imposta pela nossa ética e pelo nosso passado, organizar o que era inorgânico ou desordenado, criar a consciência duma possibilidade de engrandecimento que, embora assente no património antigo, tem de ser construído por nossas mãos, exige tais sacrifícios, tais virtudes, tão elevada devoção, apela para sentimentos tão puros e desinteressados que, se dão grandeza à Revolução Nacional, apresentam também dificuldades enormes. É fácil dever do Governo mostrar a necessidade de sacrifícios; mas aceitar de boa vontade esses mesmos sacrifícios, chegar a amá-los é quase virtude de santos.
A minha tese de hoje é que se torna necessário intensificar a educação política do povo português para garantia da continuidade revolucionária, e que, se os princípios da Revolução Nacional, pela sua mesma elevação, constituem fonte de dificuldades, também a missão educadora é simplificada por duas ordens de factos. A primeira é a obra realizada nos doze anos escassos decorridos desde o 28 de Maio; a segunda é que o português apreende por intuição notável o sentido profundo da transformação que se opera e tem por natureza ou educação secular o de um destino nacional que nada tem que ver com a modéstia recursos e o baixo nível da sua instrução. A Nação tem decididamente a vocação do heroísmo, do desinteresse, da acção civilizadora, da grandeza imperial, e enternece verificar que o simples povo não a perde, mesmo quando o escol dirigente parece atraiçoá-la.
Ora ninguém desejará certamente que renasça a cada momento, entre nós, a tendência doentia para a mediocridade e se troque o sentido das grandes aspirações da Nação -pelo depravado gosto de coisas mesquinhas e fúteis que não valem nos ocupemos delas. Ainda que não fossem graves, sob todos os aspectos, as condições do tempo presente, ninguém compreenderia se pudesse continuar enleado e diminuído por preocupações inconciliáveis com a grandeza da tarefa que a cada um cabe na obra do engrandecimento pátrio.



O Problema da Educação (22)

(«A educação política, garantia da continuidade revolucionária» — Discurso à União Nacional, em 22 de Março — «Discursos», Vol. 111, págs. 27-28, 29-30 e 37-38) - 1938

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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