23 de setembro de 2017   
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A descoberta abnegada e teimosa é sem dúvida um título; o sangue dos soldados, nas lutas da ocupação, selo material da posse; mas o que está feito é mais — é a fusão da raça e da terra, o alargamento, até aos confins do sertão, das estreitas fronteiras da Península, a mesma Pátria reproduzida, alma e sangue, ao modo de mãe em seus filhos.
A charrua penetra o solo mais que o ferro da espada; o suor fertiliza a terra mais que o sangue das veias; o espírito afeiçoa e transforma os homens e a natureza mais profundamente que a força material dos dominadores. As fundas pegadas e traços que ficaram de nós na terra e nas almas, por muita parte onde não é hoje nosso domínio político, e têm maravilhado os observadores desde as costas de Marrocos à Etiópia e do Mar Vermelho aos Estreitos e ao Mar da China, vêm exactamente de que a nossa obra não é a do caminheiro que olha e passa, do explorador que busca à pressa as riquezas fáceis e levantou a tenda e seguiu, mas a do que, levando em seu coração a imagem da Pátria, se ocupa amorosamente em gravá-la fundo onde adrega de levar a vida, ao mesmo tempo que lhe desabrocha espontâneo da alma o sentido da missão civilizadora. Não é a terra que se explora: é Portugal que revive.
Para haver paz não é suficiente a arrumação étnica das populações, nem os acordos económicos, nem a segurança natural das fronteiras. Tão pouco a alcançam as combinações diplomáticas que não se baseiam na coexistência de interesses reais, nem as criações artificiosas da política, nem a teimosia de sustentar contra a pressão da vida o que nem a história nem a geografia se encarregaram de consagrar e manter. A paz é sobretudo uma criação de espírito, fruto da força que se limita, isto é, da consciência que sabe distinguir e respeitar a linha de separação do direito próprio e alheio e até sacrificar o seu interesse a interesse maior que lhe é estranho.
Crise europeia, crise do espírito; crise do espírito, crise de civilização. No seio da Europa gerou-se uma civilização especificamente sua, que é a civilização latina e cristã. À sombra desta se formaram espiritualmente todas as nações da Europa e da América e do seu influxo muitas outras beneficiaram em diversas partes do Mundo. Se nessa herança moral, que é a nossa, há princípios eternos de verdade e de vida social, reputamos do nosso dever gritar a fidelidade a esses princípios: tanto mais quanto mais esquecidos e violados; tanto mais justificadamente quanto anda alarmado o mundo e perplexa a consciência dos povos que se interrogam ansiosos sobre se haverá ainda, no meio desta derrocada, lugar à verdade, à honra, à justiça, à legitimidade do direito, ao bem comum dos homens e das nações. Nem nós podemos crer — e bastas vezes o temos afirmado — que uma nação como a Rússia, que exactamente renegou desses princípios, seja quem vem — piedoso cireneu — ajudar a restabelecê-los na Europa ocidental. Mas isto são apenas afirmações de princípio; por justificado melindre não farei quaisquer aplicações à situação actual.


O Problema Político Externo - Criação de uma Política Externa Portuguesa (14)

(A Europa em guerra. Repercussão nos problemas nacionais» — Discurso na Assembleia Nacional, em de 9 de Outubro — «Discursos)), Vol. III, págs. 178-179 e 184-185) - 1939

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
«Salazar - O Obreiro da Pátria» - Marca Nacional (registada) nº 484579
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