29 de maio de 2017   
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Modestamente, sem alarido, sem invejar ninguém, por nossas próprias forças e recursos, fomos reconstruindo o lar pátrio, fazendo pacificamente a nossa revolução social política, com mira em melhorar e engrandecer o que é nosso, valorizar o que somos na Europa e no Mundo, sem de modo algum excluir que do nosso progresso, da nossa ordem e paz resultasse alguma contribuição para o bem de todos. E não porque esteja acabada essa tarefa ou porque tenha sido menos intensa ou valiosa a acção em melhoramentos materiais e no domínio moral e político, todos sentimos que, sobretudo nos últimos dois anos, as maiores preocupações vieram de fora e os olhos involuntariamente se voltaram para onde se pressentem os maiores perigos e questões que muito sobrelevam as dificuldades internas.
Vivemos um destes períodos de crise e infelizmente juntamos às dificuldades existentes as que forjamos por nossa imperícia ou desregradas paixões. O pior de tudo, a meu ver, é ter-se deixado envenenar a atmosfera em que se poderia trabalhar com proveito. Dos conceitos morais e dos elementos utilizáveis para uma obra humana, nada ou muito pouco resta de pé — nem tratados, nem verdade, nem fé na atitude dos Governos, nem confiança nos sentimentos das nações, nem sinceridade no trato, nem valor mesmo relativo da palavra que empenha a honra dos Estados. Quase tudo fictício, meramente aparente, movediço e incerto na consciência dos governos como das multidões. É o desgaste fatal da mentira, em grande e por sistema, na alma dos povos.
Não se podia ter trabalhado pior. Postos de lado os métodos experimentados e discretos da diplomacia clássica, com seus defeitos e inegáveis vantagens, pretendeu-se que correntes de ar sadio e livre atravessassem as chancelarias e foi-se de um salto para o processo democrático da assembleia geral, com seus discursos, suas moções, seus grupos e partidos, seus conciliábulos de corredor; suas longas discussões e votos de afogadilho. A publicidade por que se almejava relativamente aos propósitos, aos sentimentos e aos compromissos veio a ser ilusória, pois logo se criou um estilo que ocultasse o que não era prudente ouvir e pudesse ser aplaudido de todos os cantos da terra e de todos os horizontes do pensamento.
Acorrentados a processos de trabalho que na política interna se verificara terem quase por toda a parte falido, diplomatas e homens de Estado desperdiçam ingloriamente inteligência e tempo em conferências públicas que a si mesmas publicamente se confessam impotentes. À parte o terreno jurídico em que o acordo dos governos é mais fácil, pois geralmente se trabalha dentro da ciência ou da técnica, nas questões económicas e políticas, isto é, naquelas em que os interesses materiais ou morais das nações estão em jogo, nada ou muito pouco se tem conseguido, com a agravante de a repetida falência de esforços ser motivo de geral inquietação.
A este mal outro se junta — gravíssimo. Uma inconcebível liberdade de imprensa em política externa, uma inacreditável desenvoltura na maneira de tratar assuntos internacionais, nações e governantes estrangeiros, está aqui e além, sob os olhos resignados de Governos, a cavar abismos, a falsear os factos, a aventar interpretações, a desvirtuar as intenções mais correctas, a desvairar a opinião pública. E muitas vezes sucede que a breve trecho uma questão não é já o que era mas o que um jornal fez dela, e os diplomatas gastam tempo precioso a tentar desfazer os malefícios da sua imprensa. Fazem-se e desfazem-se no papel amizades de nações, criam-se atmosferas artificiais de ódio, porventura até como meio de pressão diplomática, e já não é a primeira vez que assistimos com espanto a porem-se na base de certos compromissos, como se se estivesse em guerra, tréguas, ou armistícios de imprensa. Estamos nisto.
Na Europa perturbada, amargurada, ansiosa dos últimos anos tivemos de abrir caminho para defesa dos nossos interesses. Na Península ou, melhor, no conflito espanhol chegaram estes a ser esquecidos, negados, postos em dúvida, e muitos desentendimentos e dificuldades daí advieram até que a marcha das coisas e a publicidade de documentos que traduziam os secretos intuitos de dirigentes da desordem internacional e da política espanhola acabaram por abrir os olhos a toda a gente. Para nós é claro como água que as simpatias estranhas suscitadas à volta do nacionalismo espanhol contra a invasão comunista na Península serviram ao mesmo tempo e preciosamente a tranquilidade em Portugal.
Não pode no entanto supor-se que o feliz desfecho da guerra de Espanha represente para nós o fim das dificuldades actuais: apenas um capítulo se encerra. Por menos que desejemos encontrar-nos envolvidos em questões alheias — devemos procurar alhear-nos de tudo o que nos não toque directamente — são bastante vastos os interesses portugueses e, pelas razões indicadas acima, ainda bastante delicada e perigosa a atmosfera internacional, para que não continuem a impor-se os mesmos cuidados e exaustivos esforços. Na presente crise moral cada vez menos a consciência do Mundo está sendo escudo suficientemente forte para a defesa dos direitos de cada um.


O Problema Político Externo - Criação de uma Política Externa Portuguesa (10)

(«Duas palavras de prefácio» — «Discursos» Vol. II, págs. XI-XV e XVII-X VIII) – 1937

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