27 de junho de 2017   
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Terminaram vitoriosamente as últimas campanhas diplomáticas e com isso nos devemos regozijar; mas sobre a minha alma insatisfeita uma pequena nuvem paira ainda, porque, se por aqueles triunfos se pode aferir a excelência dos nossos princípios, também infelizmente, pela sua pretensa novidade, se pode medir um pouco a decadência moral da Europa, contra que ainda a medo nalguns pontos se reage. Que fizemos ou fazemos que não possa ou não deva ser feito em toda a parte?
Temos reivindicado como atributo indispensável da independência política a nossa independência mental e moral, o nosso poder de revisão e de crítica das ideias feitas, das noções assentes, dos compromissos tomados, dos conluios, de interesses, das sombras, dos vaticínios, das tétricas profecias. E, contrariamente aos que puderam confundir independência e isolamento ou hostilidade, verificou-se, ao pormos claramente sobre a mesa das conferências os dados da nossa experiência
— as nossas razões — que mantínhamos mais firmes as amizades antigas e granjeávamos novas simpatias e o respeito de todos.
Temos procurado que os princípios políticos e morais que seguimos e a que estamos ligados se distingam por uma vez corajosamente das fórmulas vazias, hipócritas, a ameaçarem converter a vida internacional em farisaísmo intolerável, em sábio processualismo inútil, já sem poder sequer salvar as aparências. A esses altos princípios da vida social, entre os indivíduos e entre os povos, entendemos que tudo o que lhes é inferior se deve sacrificar; mas o que por vezes se sacrifica são realidades tangíveis a concepções abstractas sem alicerces na razão nem vida no espírito dos homens.
Temos, em terceiro lugar e semelhantemente ao que praticamos na ordem interna, defendido que a ordem internacional seja de direito e de facto resultante da conciliação de interesses nacionais, fora da abusiva intervenção de grupos ou partidos de uma ou outra nação, convencidos de que por outro modo só se conseguiriam multiplicar as dificuldades existentes e de que piores que nacionalismos, mesmo agressivos, são alguns internacionalismos da hora presente. Minando-se a segurança interna dos Estados, debilitando-se a coesão nacional, permitindo-se a criação de partidos políticos com acção e influência exterior, não se caminhou para uma humanidade mais amiga, fraterna ou pacífica, mas para a hegemonia de um partido que, parodiando a raça eleita do Senhor, promete sacrilegamente a todos os povos a redenção pelo crime.
Por fim este conceito de Estado — pessoa de bem não percebemos nunca porque havíamos de limitá-lo aos usos da governação interna (se bem que a muitos se afigurasse mesmo aí grande arrojo e novidade), e não haveria de estender-se aos domínios da política internacional onde a honra, a sinceridade, a lealdade dos fins e dos processos deveriam ser regra indiscutível e fielmente observada. Por nós vamos ainda mais longe, exigindo, pelo que se refere a relações normais e amigáveis com os outros Estados, um mínimo de concordância de ideias, sentimentos e instituições jurídicas sobre que assenta a civilização.
Nada encontro nestes princípios e atitudes extraordinário ou novo, mas não há dúvida que por eles se tem norteado a acção externa e que eles condicionaram o não reconhecimento da Rússia soviética, as nossas contínuas e por vezes importunas intervenções em Genebra, a nossa suspensão de relações com a Espanha.



O Problema Político Externo - Criação de uma Política Externa Portuguesa (07)

(«A guerra de Espanha e a suspensão de relações diplomáticas» — Discurso no Ministério das Finanças, em 31 de Outubro — «Discursos», Vol. II, págs. 222-224) – 1936

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