22 de outubro de 2017   
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Ao passo que a máquina administrativa se aperfeiçoava para mais e melhor rendimento em todos os ramos do serviço público, definiu-se a doutrina, formularam-se os grandes princípios da reforma constitucional e começou-se, peça por peça, a edificar o Estado Novo. A garantia suprema da estabilidade da obra empreendida estava precisamente na reforma moral, intelectual e política, sem as quais os melhoramentos materiais, o equilíbrio financeiro, a ordem administrativa ou não se podiam realizar ou não perdurariam.
O que tem sido essa obra de reeducação do País – dos indivíduos, das classes, dos organismos públicos e privados, das actividades, dos interesses e dos serviços – poucos o podem avaliar em toda a sua extensão e dificuldade, porque a muito poucos tem sido dado tocar com o dedo a realidade da nossa desordem e medir com o olhar a profundidade do abismo em que nos tínhamos despenhado.

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Contrariamente a outros movimentos que nos precederam ou seguiram na Europa, nós vamos fazendo a doutrina com a Revolução: além, grupos homogéneos, perfeitamente doutrinados, ao menos nas grandes aspirações e linhas dos sistemas políticos, executam no poder o seu pensamento de Governo; aqui, o Exército, tendo falhado tudo, tomou as responsabilidades do mando e teve de esperar que o seu acto fosse compreendido e fossem precisadas na consciência pública, com a firme adesão de todas as boas vontades, as vagas aspirações que ele próprio interpretara.
Tendo-nos faltado, pela força e carácter da Revolução, os paradigmas estrangeiros, fonte das nossas imagens e ideias em matéria política; sem podermos dispor, para as maquinações e os discursos, de governos partidários ou extrapartidários, de concentrações de partidos com larga base liberal ou conservadora, com acentuada tendência para a direita ou para a esquerda, com ou sem tréguas políticas ou parlamentares – como tudo isso nos faz hoje sorrir! – a perigosa tendência dos espíritos, desacompanhados do esteio de outra doutrina, era – e continuará a ser ainda durante algum tempo – para a reconstituição, com algumas modificações acidentais, de um passado morto. Devemos crer que o maior risco já passou e está vencida a maior dificuldade proveniente da crise ideológica.

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É próprio da natureza humana apreciar mais as coisas quando não as tem ou vêm a faltar-lhe. Os melhoramentos materiais ou morais, uma vez conseguidos e passados os primeiros momentos da novidade, não pesam, em geral, muito na consciência dos indivíduos. Julgo providencial o facto na ordem política, porque evita a estagnação e constitui estímulo constante para novas ordens de realizações. Perante a alma insatisfeita do povo, os governos são obrigados, mesmo para sua defesa, a fazer cada vez mais e melhor.
A deturpação deste facto verdadeiro leva alguns a supor que os homens apreciam mais as esperanças que as realidades, e a cobrir, na hasta pública dos pretendentes políticos, cada lanço com lanço ainda maior, e tanto maior pode ser, quanto mais longe esteja a hora de ter de se cumprir. Como se a Revolução se não houvesse feito contra a política das vãs promessas e a experiência entre nós não fosse bem clara em demonstrar que o povo, acima do passageiro prazer da ilusão, aprecia a certeza de que Estado é uma «pessoa de bem»!
Não escondo nem diminuo as dificuldades desta política que não explora paixões e se dirige às qualidades mais nobres dos homens. Foi mesmo para as salientar que lhe fiz referência. Ela é, porém, imposta pelo culto da verdade, em primeiro lugar, e depois pela necessidade de não ceder a tendências ou sugestões que nos arrastariam de novo àquela feira de competições e artifícios, causa da mediocridade em tempos geralmente notada e de que a custo nos temos vindo levantando.


O Problema da Educação (19)

(«Balanço da obra governativa. Problemas políticos do momento» - Discurso na Câmara Municipal de Lisboa, em 27 de Abril - «Discursos», Vol. II, págs. 23-24, 27-28 e 29-30) - 1935

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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