24 de março de 2017   
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A tendência nos regimes parlamentares é para localizar a sede da autoridade dominante numa Assembleia eleita por votos de tipo individualista e base partidária.
A sequência lógica dos acontecimentos tem visto passar esta autoridade da Assembleia para os grupos parlamentares, destes para os partidos, dos partidos para os respectivos directórios, destes para o eleitorado anónimo, em último recurso. A experiência demonstra que de escalão em escalão o poder se degrada, se dissolve e que o Governo ou não é possível ou não é eficaz. Quando as dificuldades se acumulam, a desordem cresce, a carência da autoridade torna a vida social precária e as próprias liberdades políticas se transmudam em licença geral, elevam-se do país vozes a reclamar um Governo que governe. Costuma ser o fim de um processo; mas parece que era por aí que se devia ter começado: haver um Governo que governe.
A generalidade dos portugueses não teve nunca tanta liberdade como no actual regime, porque, nos limites em que se concede, é igual para todos e efectivamente garantida. Assim se compreende que a vida associativa se tenha multiplicado e intensificado e que não se verifiquem entraves visíveis à vida corrente dos portugueses. Simplesmente a associação para a política partidária, as reuniões para a política partidária, a imprensa para a política partidária sofrem limitações, coerentemente com a pretensão de curar do partidarismo doentio que a degradava a sociedade portuguesa. Trata-se em verdade de um «regime de cura» e de legítima defesa, em grau que não pode ser considerado superior às necessidades.
É natural que alguns homens educados para a luta puramente política, as especulações demagógicas, as exaltações emocionais das massas populares, e por esse motivo propensos a reduzir a vida da Nação à agitação própria e das forças partidárias que lhes restem, não tenham revelado compreensão nem dado mostras de adaptar-se. Mas a Nação que faz livremente a vida que quer, a Nação viva e real, essa, comparando passado e presente, olha com certa desconfiança o zelo destes apóstolos da liberdade.
O Poder precisa de sentir-se limitado, agir sob limitações — as internas, provindas da própria consciência dos governantes, da existência das leis e do regular funcionamento dos outros órgãos da soberania; e as externas, provenientes do juízo público, duma opinião que seja esclarecida e desapaixonada. A necessidade deste juízo pressupõe, porém, a existência de meios e de liberdade suficiente para se exteriorizar. E o mesmo se dirá do contacto, da comunicabilidade entre o Poder e a Nação. Simplesmente penso que, se aqueles problemas vêm um dia, apesar da imperfeição que marca toda a obra humana, a ter uma solução satisfatória, esta não advirá do simples reconhecimento de direitos abstractos, mas há-de encontrar-se através da organização das actividades nacionais, cuja representação venha a ser junto do Estado, no Estado, o espelho e a síntese do sentir geral da Nação.



AUTORIDADE E LIBERDADE: A Nação contra os partidos; A União Nacional (35)

(O meu depoimento» — Discurso na inauguração da Conferência da U. N., no Porto, em 7 de Janeiro — «Discursos», Vol. IV, págs. 358, 365-366 e 366-367) – 1949

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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