18 de novembro de 2017   
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(Continuação)


Foi-se ainda mais longe e por pior caminho: desprendida a riqueza do interesse da vida humana, a produção caminhou ousadamente para onde havia de desconhecê-la, de negá-la, de atraiçoá-la, de fazê-la morrer, sem que os Estados, guardas e dirigentes das nações, descruzassem os braços perante essa economia suicida. Vede se há maior absurdo do que trabalhar para morrer e ser fim da vida económica aniquilar a vida humana.
A vida humana tem exigências múltiplas e é de desejar que cada vez tenha mais. Mas nesta via ascendente de necessidades e de riquezas acumuladas não deve esquecer-se que não há progresso quando a vida é mais rica, e só quando é mais alta, mais nobre na sua chama interior e na sua projecção externa. À colectividade interessa, para a defesa da civilização, a produção de coisas verdadeiramente úteis e belas, e a generalização do seu gozo a todos os homens, devendo ser igualmente repudiados o desinteresse pela conservação e beleza da vida e o interesse exclusivo das materialidades humanas. O critério puramente utilitário amesquinharia a vida social e não seria digno do homem.
Ter ou não ter critério racional para definição das necessidades, da utilidade, da riqueza, não é indiferente na vida particular ou na vida colectiva. A escolha do que nos é preciso, individual ou colectivamente, está sempre na base da vida e é por si só susceptível de imprimir novas orientações à economia nacional e a toda a administração pública. Culpamos muitas vezes os homens públicos dos desvios que a política tem imprimido à marcha dos negócios e à execução dos planos gerais: e poucas vezes nos teremos lembrado de que é talvez a viciação do nosso conceito de produção, de riqueza, de utilidade das coisas que está na origem dessa desorientação administrativa: o palácio é feito antes da estrada, a avenida antes de se ter água e o jardim é adubado com os esgotos das ruas.
Em suma: a riqueza, os bens, a produção não constituem em si próprios fins a atingir: têm de realizar o interesse individual e o interesse colectivo; nada significam se não estão condicionados à conservação e elevação da vida humana. A este objectivo devem obedecer o conjunto da produção nacional e a actividade administrativa do Estado, dispostas, uma e outra, o mais possível segundo a ordem racional das necessidades dos indivíduos e da Nação.
A riqueza é filha do trabalho e quem fornece o trabalho é o trabalhador.
Damos a este termo um significado latíssimo e fazemos entrar nesta categoria económica todo o esforço de ordem intelectual ou física que tem intervenção e utilidade directa ou indirecta no processo da produção, desde o professor ao governante, desde o agente da ordem ao simples operário. Não é trabalho só o esforço manual, o trabalho puramente mecânico de vigiar a máquina, de substituir a máquina; muitas outras espécies de trabalho colaboram na produção, valorizando, multiplicando o rendimento daquele: o de criar, empreender, orientar, dirigir, fiscalizar. O nosso povo diz profundamente: o que trabalha é o cuidado — frase simples, que contém uma verdade de boa observação. É em horas preocupadas, de silêncio, de meditação, tantas vezes de aparente ociosidade, que os homens que dirigem superiormente a vida económica dispõem no tempo o trabalho alheio, sistematizam, coordenam os esforços dispersos de outros homens, para o maior rendimento do conjunto e o maior interesse da colectividade. É o trabalho do inventor, do técnico, do chefe da oficina que permite ao simples operário viver.
Neste sentido lato o trabalho é um dever social.
Uma das mais falsas ideias em economia fez atribuir grande valor aos simples gozadores da vida e gastadores do dinheiro. Eles teriam a utilidade de fazer circular mais velozmente a riqueza adquirida ou de imprimir maiores impulsos à produção pelo dispêndio anormal de produtos. É porém contra a boa razão cristalizar nas coisas somas de trabalho que não servem socialmente para nada, senão para deitar fora. Se o homem não deve ser escravo da riqueza, também não deve organizar a vida de modo a ser escravo do trabalho.


(Fim)

O PROBLEMA DA RIQUEZA; SUA FUNÇÃO SOCIAL; CAPITAL E TRABALHO (02)

(«Conceitos económicos da nova Constituição» — Discurso radiodifundido da União Nacional, em 16 de Março — «Discursos», Vol. 1, págs. 190-192, 193-196, 196-197 e 198) – 1933

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