22 de outubro de 2017   
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Por uma espécie de reacção contra um conceito demasiadamente depreciativo do trabalho manual, o operariado foi naturalmente levado também a exagerar o valor do esforço que fornece na obra de criação de riquezas de que vive a colectividade. A ideia de que só ele trabalha e produz, vivendo as outras classes da população parasitariamente do seu esforço, cuja maior utilidade não usufrui, é corrente na classe operária e é atentatório da própria civilização que a deixemos firmar-se. A hierarquia dos trabalhos concorrentes na produção, directamente ou indirectamente, é desconhecida, ou pelo menos é negado o seu direito a provocar uma gradação nas retribuições.
Esta hierarquia — trabalho de invenção, de organização, de direcção e de execução — ao mesmo tempo que traduz uma necessidade intrínseca da produção material, é reflexo da desigualdade natural de aptidões individuais, que a sociedade não pode nem deve contrariar.
O homem de Estado, o juiz, o advogado, o médico, o sacerdote, o artista, o professor, o sábio não são apenas flores ornamentais duma civilização de mentira; trabalham para criar aquelas condições morais, sem as quais a produção seria indiscutivelmente inferior. A ordem, a justiça, a beleza, a ciência que aumenta o poder do homem sobre a natureza e as suas faculdades criadoras, não são riquezas materiais; mas sem elas a produção não seria tão abundante nem tão valiosa.
A ideia da importância exclusiva ou dominante do trabalho material, desacompanhado daquelas condições que a organização política e o espírito humano foram criando, é pois mais que uma ilusão, como há pouco lhe chamei, é uma ideia de morte, não já para aquilo que chamamos a nossa civilização, mas para o futuro da produção das riquezas, em que já está directamente interessada a classe operária.
Vejamos agora as ilusões do operariado acerca da riqueza. Deixemos os homens ricos, que, para já, nos não importam, e examinemos a riqueza em si e nos benefícios que presta. Se me fora permitido caracterizá-la na sua acção económica por elementos morais, dir-vos-ia que há uma riqueza egoísmo e uma riqueza sacrifício e dedicação. A primeira é a riqueza destinada ao consumo, à satisfação de necessidades naturais ou artificialmente criadas pela civilização. A segunda é a riqueza que se destina às novas produções, ao maior enriquecimento da colectividade.
Esteja na mão de particulares, ou na mão de sindicatos, ou na mão de pequenas circunscrições territoriais, ou na mão do Estado, esta riqueza é a cristalização dum trabalho acumulado por séculos, e é garantia de produção futura, directamente proporcional à sua importância. É uma riqueza que para constituir-se precisa previsão e exige sacrifício — o sacrifício dum apetite presente que a consumia, a uma produção futura que a aproveita, e a previsão do peso das necessidades futuras em comparação das necessidades presentes. Essas qualidades de sacrifício, de dedicação, de renúncia exigem o homem sob estes aspectos superior, porque tais qualidades não se encontram no vulgo e muito menos na multidão.
Figuro este homem rico, mas rico produtor, como uma espécie de administrador de bens dum incapaz, tornando fecunda a riqueza pela sua acção, pela sua iniciativa, pelas suas qualidades de dirigente e de chefe.

(continua)

O PROBLEMA DA RIQUEZA; SUA FUNÇÃO SOCIAL; CAPITAL E TRABALHO (01)

(«A paz de Cristo na classe operária pela SS. Eucaristia» — Discurso proferido no Congresso Eucarístico de Braga, em 4 de Julho) - 1924

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Música de fundo: "PILGRIM'S CHORUS", from "TANNHÄUSER OPERA", Author RICHARD WAGNER
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