13 de dezembro de 2017   
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O problema financeiro não abrangia apenas o que em sentido estrito se poderia compreender, mas, além do equilíbrio das contas, tudo quanto nele se apoia ou dele pode derivar. Ele abraçaria a repartição dos impostos, a regularização da dívida pública, as taxas de juro, as reservas monetárias, a estabilidade e solidez do valor da moeda, a distribuição e mobilidade do crédito, a dotação eficiente dos serviços públicos, a própria ordem da Administração.
Nesse vasto conceito entravam pois, não apenas a manutenção do equilíbrio orçamental ou a acumulação de saldos no Tesouro, mas a equitativa repartição dos gastos públicos e privados e até as relações da economia nacional com as economias estrangeiras. O equilíbrio representaria sobretudo a imagem de um Estado «pessoa de bem», que satisfaz pontualmente os seus compromissos, só gasta na medida das suas possibilidades e sabe organizar a vida colectiva com modéstia e com decência.
A prioridade da reforma financeira não foi aceite pacificamente, mas objecto de sérias controvérsias. O grande número inclinava-se para que se desse de começo preferência ao desenvolvimento da produção e o equilíbrio financeiro se buscasse mais adiante, na base larga e sólida de uma economia enriquecida. Esta construção, entre nós: filha do menor esforço mas teoricamente defensável, esquecia duas coisas essenciais:
uma, que a reforma das finanças, na falta absolutamente confirmada de crédito externo e na impossibilidade de movimentar, em condições aceitáveis, capitais nacionais, era necessária ao incremento das obras públicas e à exploração dos maiores recursos do País; outra, que essa reforma, dado gozar a moeda já de certa estabilidade de facto, vinda detrás, era também a que mais rapidamente se desdobraria em resultados tangíveis e, sob o aspecto da defesa do interesse nacional, nos aparecia revestida de maior importância e urgência. Eu entendia que só no caso de se verificar impossível equilibrar as contas e sanear a Administração se deveria desistir. Mas era firme a minha convicção de que a favor do equilíbrio se poderia pedir ao rendimento nacional um contributo maior e aos serviços públicos um esforço de economia sem prejuízo da sua eficiência corrente. A indicação dada «de uma vez só e agora» ressoou como ordem de saltar por cima do abismo e construir em terra firme. Um inglês, um suíço, ao abrigo da sua tradição de finanças sãs, tem talvez o direito de sorrir. Afirmo que em Portugal se tratava de problema difícil e infelizmente de uma solução rara.


A BATALHA DA RESTAURAÇÃO FINANCEIRA DO PAÍS (19)

(«Prefácio da 4. edição» — «Discursos», Vol. I, págs. IX-XII) - 1948

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